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sábado, 25 de janeiro de 2025

Gumshoes - Bugs Forever (2025)

                                       

Pelo menos até o momento que escrevo essa resenha, Gumshoes parece ser uma banda cercada por um curioso véu de mistério. Apesar de ter me esforçado bastante, não obtive sucesso algum em encontrar muitas informações relevantes sobre eles. Tudo o que sei é que o líder do grupo é Sam Parks. De qualquer forma, Bugs Forever chamou minha atenção ao entregar uma música simples e despretensiosa, mas de qualidade. 

O disco mistura de uma maneira muito bem-feita a energia crua e emocional da música indie com a sofisticação sonora do pop de câmara. Cada faixa é construída com arranjos delicados e espontâneos, além de cheios de vida, sendo o tipo de disco onde melodia e textura se entrelaçam de uma maneira harmoniosa e gostosa de ouvir. Existe algo bastante autêntico e emocional em cada canção e que faz parecer que estamos ouvindo fragmentos de um diário sonoro.

“Cockroach Song” começa o disco por meio de uma sonoridade edificante liderada principalmente por violão e piano em cima de uma batida média, com a banda criando uma atmosfera leve e quase esperançosa. Porém, apesar de musicalmente otimista, sua letra sobre a sobrevivência e o peso emocional de viver em um mundo caótico e violento que contrasta profundamente com essa sonoridade.

“Can’t Complain”, em meio a uma reflexão sarcástica sobre a vida, o caos e a adaptação ao sofrimento, a banda entrega uma peça melodicamente leve e que remete bastante à primeira fase dos Beatles, com seus acordes simples e alegres, além de uma sonoridade quase que descompromissada, porém, sem perder o foco em sua crítica social. “Bad Omens” é um dos momentos mais alto astral do disco. Possui uma energia contagiante que é conduzida por uma instrumentação vibrante e que combina riffs cativantes e uma batida pulsante, enquanto cria uma atmosfera que imediatamente prende o ouvinte. A letra parece ser da perspectiva de uma pessoa assombrada pela sensação de que tudo ao seu redor – incluindo fenômenos bonitos e inofensivos - são na verdade maus presságios.

“Little Things”, ao mesmo tempo que pode ser vista como uma ode a aceitação da pequenez humana, também serve como uma busca por significados. Musicalmente é uma balada reconfortante que se constrói em torno de uma linha de piano edificante. É o tipo de música que convida o ouvinte a pausar, refletir e se perder em seus próprios pensamentos. 

“Supermoon” é uma faixa que se destaca pela sua atmosfera envolvente e por evoca um charme literário e melódico que lembra a sonoridade da banda Decemberists. A construção instrumental tem a capacidade de criar paisagens sônicas cheias de nuances. Até mesmo os vocais de Sam Parks nesta música remetem tanto ao estilo de Colin Meloy. A letra é um tanto paradoxal, afinal, um dos temas é a esperança em buscar algo inatingível. 

“The Floor Is Yours” é uma faixa que encanta pela simplicidade e pela atmosfera intimista que cria. Com uma abordagem basicamente acústica a música transmite uma sensação de tranquilidade e nostalgia, como se fosse feita para momentos compartilhados ao ar livre, sendo uma espécie de celebração do silêncio como uma oportunidade para a criação de algo, mas deixando claro que é nossa responsabilidade preencher esse vazio com algo significativo, seja através da arte, da reflexão ou outra coisa. 

“Settle Down” possui uma instrumentação bastante alegre, otimista, vibrante e leve que desfila muito bem sob um retrato de como as vidas humanas, mesmo com todas as suas complexidades podem ser contadas através de detalhes simples, como marcas em uma porta, fotos antigas, vestidos guardados e os sinais do tempo. “Paradise Is Green” é um pop rock de ritmo médio que cativa logo de início por meio do seu piano simpático e que conduz a música de forma suave e acolhedora. A instrumentação é equilibrada em um tom ligeiramente nostálgico, mas que não perde a sua energia e cria uma sensação de movimento constante, enquanto isso, entrega uma visão poética de como a civilização humana é temporária e por fim substituída pela natureza.

“Alexandria”, inicialmente tem uma batida que parece ter sido tirada de algum disco da Joss Stone, afinal, há um groove sensualmente rítmico que cativa o ouvinte de forma quase que instantânea. A morte é um dos seus temas centrais ao focar que apesar dos nossos esforços, acabamos sendo "perdidos" no grande ciclo da existência. “Bugs Forever” direciona o disco novamente para uma linha mais otimista e vibrante. Musicalmente irradia uma sensação de leveza por meio dos seus arranjos mais dinâmicos e uma melodia que quase transborda de vitalidade, soando como um tipo de faixa que faz você se sentir mais leve e animado, disposto a dar um passo em direção a uma nova fase de renovação ou libertação, porém, liricamente é bastante cruel ao usar metáforas e imagens viscerais que revelam uma visão pessimista e desencantada do mundo.

“Playing Pretend” é uma faixa que se equilibra entre a introspecção lírica e uma sonoridade reconfortante, soando como um paradoxo. A letra aborda a constatação de que por mais que queiramos manter as coisas boas conosco, elas são temporárias. No entanto, a música oferece uma camada de contraste interessante, afinal, apesar da profundidade da letra, o astral sônico tem um tom quase triunfante, com arranjos que transmitem uma sensação de celebração e um tipo de energia que seria perfeito para encerrar os concertos da banda.

"Suckers" é a faixa que encerra o álbum com um toque emocional ao mesmo tempo em que mantém o humor característico de boa parte do disco. A música se desenrola como uma narrativa honesta sobre as complexas dinâmicas familiares, onde o amor e a frustração coexistem em um equilíbrio muitas vezes desconfortável, mas real. A sonoridade tem uma vibração descomplicada e com arranjos que equilibram o tom descontraído e a profundidade da mensagem. Novamente, apesar da banda tocar em um tema potencialmente pesado, a música não se perde em melancolia ou pessimismo. 

No geral, embora Bugs Forever talvez não seja um disco que cause um impacto imediato ou desperte aquela vontade irresistível de apertar o replay logo após a primeira audição, ele cumpre muito bem o papel de entreter do começo ao fim. Com músicas bem compostas, o álbum demonstra a habilidade da banda em equilibrar temas reflexivos com melodias acessíveis. Cada faixa contribui para criar uma experiência coesa e agradável, ainda que sem grandes surpresas ou momentos de genialidade inquestionável.

O ponto forte de Bugs Forever está na forma como ele mantém o ouvinte engajado, transitando habilmente entre atmosferas otimistas, introspectivas e até sarcásticas, sem perder o fio condutor. É um disco que não pretende reinventar o gênero, mas que sabe como explorar bem suas influências e entregar canções que mesmo não sendo fortes de imediato, possuem um charme discreto.

NOTA: 7/10

Gênero: Pop de Câmara, Indie Rock

Faixas:

1. Cockroach Song - 4:01
2. Can't Complain - 2:28
3. Bad Omens - 3:46
4. Little Things - 4:12
5. Supermoon - 3:32
6. The Floor Is Yours - 1:59
7. Settle Down! - 3:38
8. Paradise Is Green - 3:59
9. Alexandria - 5:02
10. Bugs Forever - 3:40
11. Playing Pretend - 6:31
12. Suckers - 4:06

Onde Ouvir: Bandcamp

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

50 anos de: Song for America - Kansas (1975)

                                             

Song for America é o segundo álbum de estúdio do Kansas e representa um marco na carreira da banda, sendo um importante passo para consolidar sua identidade. Aqui o grupo explora de maneira ainda mais profundidade a sonoridade que viria a definir seu estilo, ou seja, uma fusão muito bem-acabada entre o rock progressivo e elementos tradicionais do rock clássico americano. Por meio de um nítido amadurecimento artístico em arranjos mais elaborados e um foco maior em temas líricos introspectivos e reflexivos, a banda entrega uma narrativa musical rica e diversificada que convida o ouvinte para um passeio sônico cheio de nuances e emoções.

Além disso, o disco é um exemplo da ambição crescente do grupo em termos da instrumentação do seu som. Ainda que o álbum de estreia já trouxesse indícios dessa abordagem, em Song for America a banda se elevou um outro nível através de passagens intrincadas e mudanças de tempo marcantes, além de uma interação excelente entre teclados, violinos e guitarras que solidificam a posição do Kansas como uma das principais forças do rock progressivo americano, além de estabelecer um padrão para os seus trabalhos seguintes.

O álbum é caracterizado por composições longas e dinâmicas que frequentemente exploram mudanças de andamento e variações rítmicas. Essas peças apresentam uma fusão de elementos de rock progressivo clássico com influências do folk e da música sinfônica, criando assim, um som muito bem trabalhado e cheio de detalhes. Os arranjos são uma de suas maiores forças, com o violino desempenhando um papel central em que muitas vezes dialoga com guitarras energéticas e camadas de teclados. Essa interação acaba criando um panorama sonoro que combina virtuosismo técnico e texturas emocionais. A banda também demonstra habilidade em contrastar momentos intensos com passagens mais delicadas e introspectivas, algo que acaba mantendo as composições envolventes do início ao fim.

Tematicamente o álbum aborda questões profundas, sendo em muitos casos de cunho reflexivo. Liricamente o disco muitas vezes entrega temas relacionados à conexão humana com o mundo ao seu redor ao incluir reflexões sobre a natureza e a espiritualidade, além do impacto histórico das ações humanas. Ao mesmo tempo que existe um espaço para introspecções sobre questões emocionais e existenciais feitas através de abordagens poéticas.

O virtuosismo instrumental é uma marca registrada em Song for America, com cada faixa apenas confirmando a habilidade técnica e a musicalidade dos membros da banda. O disco demonstra uma maturidade artística impressionante ao combinar talento individual e coesão coletiva para criar algo que consegue ser ao mesmo tempo, ambicioso e acessível. A interação entre os instrumentos pinta um quadro sonoro de textura rica, complexa e que transporta o ouvinte por paisagens musicais variadas. 

O álbum abre com "Down the Road", uma faixa vibrante, enérgica e que já marca uma abordagem diferenciada na sonoridade do Kansas. Aqui o violino de Robby Steinhardt ganha uma nova dimensão, sendo utilizado não como um elemento sinfônico – tão característico da banda –, mas como um verdadeiro instrumento de rock. Sua presença é pulsante e carregada de atitude ao dialogar perfeitamente com o ritmo dinâmico da música e que dá a ela um toque especial. A considero bastante subestimada e poderia ter um espaço maior nos concertos da banda. 

“Song for America” é uma das mais bem elaboradas composições de todo o catálogo da banda. A música inicia com uma introdução clara e marcante que imediatamente prepara o terreno para uma jornada musical envolvente. À medida que avança, a faixa se desvia para uma primeira transição instrumental fascinante e que conduz o ouvinte por uma série de mudanças radicais e passagens dramáticas. Uma música que é um exemplo puro de composição progressiva e com estrutura complexa, mas que flui com naturalidade e coerência do começo ao fim. A faixa nunca se apressa, mas também nunca perde o ritmo, sendo que cada movimento parece evoluir de forma orgânica. A beleza está nos detalhes e nas transformações que se sucedem, tornando-a uma peça em constante evolução e que exige a total atenção do ouvinte.

"Lamplight Symphony" começa de uma maneira pomposa, imponente e repleta de camadas instrumentais que imediatamente capturam a atenção do ouvinte e criam uma atmosfera quase cinematográfica. Aquele tipo de música onde tudo está no seu devido lugar e sem exagero, desde a introdução majestosa até os detalhes mais sutis nas pausas e arranjos instrumentais, tudo se encaixa com perfeição e cria uma experiência musical impecável. É uma faixa que do começo ao fim mantém sua grandiosidade e complexidade, proporcionando ao ouvinte uma viagem sonora que nunca deixa de surpreender.

"Lonely Street" se destaca pela sua introdução suave e carregada de blues, conduzida com maestria pela voz marcante de Steve Walsh e pelo baixo pulsante de Dave Hope. O início intimista dá à música uma atmosfera quase introspectiva e transporta o ouvinte para um ambiente carregado de emoção e autenticidade. Conforme a faixa avança, ela expande sua paleta sonora sem abandonar o espírito do blues, porém, incorporando elementos que elevam a composição a um nível progressivo. As mudanças sutis na dinâmica musical mostram o quanto o Kansas consegue soar diferente dentro de um estilo tradicional, sendo uma demonstração clara da versatilidade do grupo em mostrar que eles não apenas dominam o rock progressivo, mas também têm a habilidade de explorar e transformar gêneros convencionais. 

"The Devil Game", o disco se direciona novamente para o território progressivo ao explorar uma abordagem cheia de personalidade. A faixa se destaca por sua energia intensa e por uma combinação de elementos dissonantes que à primeira vista podem parecer caóticos, mas que se encaixam perfeitamente em uma espécie de "cacofonia organizada". Essa colisão de sons cria uma atmosfera vibrante e imprevisível. A estrutura da música é rica e complexa, além de carregada de transições inesperadas e momentos de tensão que mantêm o ouvinte completamente envolvido. É uma peça repleta de surpresas e de uma intensidade que a diferencia do restante do álbum.

"Incomudro - Hymn to the Atman" foi escolhida para encerrar o álbum de forma grandiosa, sendo que não poderia haver decisão mais acertada. A faixa é uma verdadeira jornada carregada de emoção, técnica e criatividade. Desde a introdução pomposa que é marcada por um violino nostálgico que evoca sentimentos de melancolia e beleza, até os primeiros versos de Steve Walsh, a música estabelece imediatamente um clima envolvente e transcendente. Walsh entrega uma performance vocal impressionante, carregando cada palavra com uma profundidade emocional incrível. A estrutura da faixa é complexa e surpreendente, conduzindo o ouvinte por um terreno sonoro em constante transformação. À medida que a música avança, é criado uma verdadeira montanha-russa de sentimentos e texturas. As transições são tão intricadas e imprevisíveis, que descrever cada detalhe é um desafio por si só, mas uma menção especial deve ser feita ao solo de bateria,´ que adiciona um toque final de energia e maestria à faixa.

No geral, ao revelar um forte equilíbrio entre a acessibilidade e a ambição artística que define o Kansas, Song for America também é um dos álbuns que melhor encapsulam a sua essência criativa. Cada uma de suas composições abraça as características marcantes do rock progressivo dos anos 70. Além disso, o espírito americano permeia o trabalho, seja na escolha de temas líricos ou na incorporação de influências que remetem ao blues, ao country e ao southern rock. Esse toque distintivo enriquece o álbum e garante que Song for America não seja apenas um marco no rock progressivo, mas também uma celebração de suas origens culturais.

NOTA: 10/10

Gênero: Rock Progressivo

Faixas:

1. Down the Road - 3:43
2. Song for America - 9:59
3. Lamplight Symphony - 8:11
4. Lonely Street - 5:43
5. The Devil Game - 5:03
6. Incomudro - Hymn to the Atman - 12:12

Onde Ouvir: Plataformas de Streaming e Youtube

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

sonhos tomam conta - corpos de água (2024)

                                       

sonhos tomam conta é como é mais conhecida a compositora, Lua Viana. Paulista, ainda está nos primeiros passos de sua jornada musical, mas já mostrando ser uma artista de mente diferenciada. O seu reconhecimento mais significativo até o momento foi por meio do álbum split, Downfall of the Neon Youth, lançado em 2021 e que contou também com a participação de Parannoul e Asian Glow. Sendo uma verdadeira explosão de criatividade e energia, conquistou uma boa base de admiradores e colocou o nome sonhos tomam conta de vez dentro do cenário shoegaze – ainda que sua música vá além de um rótulo apenas.

Seu estilo distintivo e sua capacidade de fundir elementos, por exemplo, de shoegaze, dream pop e indie rock tem sido celebrado pelo público e críticos dentro e fora do Brasil. Com cada lançamento, sonhos tomam conta continua a desafiar as fronteiras da música e a cativar os ouvintes com sua visão única e envolvente. Como uma das figuras mais empolgantes e promissoras da cena musical atual, em seu disco mais novo, corpos de agua, sonhos tomam conta está destinada a deixar uma marca indelével no mundo da música e a inspirar uma nova geração de artistas – embora ela faça parte dessa nova geração - a explorar novos horizontes sonoros.

"uma súplica" inicia o disco por meio de uma levada suave, onde tudo é tão gracioso, muito bem direcionado por uma percussão macia e vocal reconfortante, sendo aquele tipo de música que abraça o ouvinte. Parece retratar um cenário de devastação causado por eventos naturais e a busca por renovação e esperança em meio à destruição. "oração do mar" começa com o mesmo humor e vibração da faixa anterior, mas logo cresce em um clima mais pesado e tempestuoso – permanecendo a maioria da música assim. Uma mensagem de esperança, renovação e conexão espiritual é transmitida através da água e da natureza, revelando beleza até nos momentos adversos.

"tuas pegadas", se na peça anterior podemos sentir uma espécie de intempérie musical, inicialmente aqui o clima mais parece de uma bonança, porém, é aplacado por uma crescente que explode com mais intensidade próximo do final, criando uma das harmonias mais lindas de todo disco. Liricamente parece está focada na fluidez do viver, onde reside a serenidade da aceitação da efemeridade da vida e das coisas materiais, além de encontrar a entrega confiante ao seu curso natural. Uma mensagem de aceitação, entrega e transcendência, encontrando conforto e significado na conexão com a pessoa amada e com a natureza.

"o oceano de solaris" é uma música que conta com a participação da cantora Magnolia. Começa apenas com sons de ventos no litoral e algumas notas delicadas no violão. A música segue essa mesma atmosfera por um tempo, ficando mais robusta com o acréscimo de algumas batidas dançantes. Cantada em português e inglês, pode ser uma reflexão sobre a busca humana por significado e verdade em meio à complexidade da existência, porém, reconhecendo que algumas questões talvez permaneçam sem respostas de forma definitiva.

"de areia e sal" é mais uma música que conta com participação especial, nesse caso, o Meu Quarto Vazio se junta a Lua e companhia. Possui alguns vocais rasgados e que parecem carregar bastante angústia, enquanto a música se desenvolve dentro de uma força instrumental excelente. Uma profunda reverência pela natureza, celebrando a conexão entre o eu lírico e o seu amor personificado pelo mar.

"scarborough fair (cântico)", MINTTT e G4laco são os convidados aqui. Se trata de uma reinterpretação política de uma canção inglesa folclórica tradicional, que usa suas melodias familiares para transmitir uma mensagem de solidariedade e apoio aos palestinos no conflito com Israel. Sem dúvida é um dos momentos mais doces e sensíveis do disco, além de ser uma entrega charmosa e de beleza única.

"a sétima onda" tem a última participação especial do disco, João Virtudes. Até pouco mais dos seus 2 primeiros minutos, a música desliza de uma maneira suave e delicada, mas de repente, um corte poderoso de guitarra a direciona para uma linha instrumental pesada e visceral, com direito a um vocal gutural. Dentro desses dois climas, há uma exploração de temas como metamorfose, rejuvenescimento e jornada espiritual, entrelaçados com uma busca por conexão espiritual com a natureza e o universo.

"trilhas da água" é a última faixa do álbum e inicialmente entrega um fechar de cortinas cheio de brilho, encantamento e distinção, então que uma guitarra venenosa rasga o ambiente enquanto os demais instrumentos criam uma atmosfera densa. Possui uma exploração de temas que envolvem a harmonia com a natureza, a noção do tempo e a finitude da vida.

Por meio de corpos de água, sonhos tomam conta presenteou o ouvinte com um disco repleto de beleza, charme e doçura. Cada faixa é como um rio sinuoso, fluindo suavemente através de paisagens sonoras que variam desde tranquilas poças refletindo a luz da lua, até correntes rápidas, emocionantes e tempestuosas. As letras, muitas vezes poéticas e evocativas, aprofundam ainda mais essa experiência, convidando-nos a refletir sobre nossas próprias jornadas e emoções.

corpos de água é aquele tipo de disco que permanece dentro do ouvinte mesmo após dias de sua escuta, afinal, sua música tocante não atinge apenas os ouvidos, mas também o coração, deixando uma impressão duradoura. Cada vez que o álbum é ouvido, é como se uma nova camada de significado fosse revelada.

NOTA: 9/10

Gênero:  Shoegaze, Ambient Pop, Indie Rock, Post-Rock

Faixas:

1.uma súplica - 2:31
2.oração do mar - 5:43
3.tuas pegadas - 7:08
4.o oceano de solaris - 7:30
5.de areia e sal - 4:56
6.scarborough fair (cântico) - 3:31
7.a sétima onda - 6:36
8.trilhas de água - 7:24

Onde Ouvir: Plataformas de Streaming e Youtube

The Circle Project - Bestiario II (2024)

                                        

The Circle Project é um projeto espanhol idealizado por Ángel G. Lajarí – que não canta e nem toca nenhum dos instrumentos, mas se posiciona na produção, na criação de arte e design gráfico, além de ser o gerente do projeto. O som da banda se destaca pela sua abordagem criativa que combina muito bem literatura e uma ampla gama de gêneros musicais, com um enfoque especial no art rock. A proposta da banda é oferecer uma experiência musical que vai além da simples apreciação sonora. Suas composições não são apenas sofisticadas e elaboradas, mas também carregam narrativas literárias profundas e envolventes que capturam a imaginação e o coração de quem se deixa embarcar no mundo criado pelo grupo. Ao integrar elementos de storytelling com arranjos musicais sinfônicos, a banda proporciona uma imersão completa no universo das suas criações.

Considero a gênese do The Circle Project bastante curiosa. O conceito da banda surgiu a partir de uma série de discussões entre os membros do grupo espanhol no Facebook denominado Prog Circle. Este grupo, dedicado ao rock progressivo e seus diversos subgêneros, funcionou como um ponto de encontro virtual para entusiastas da música progressiva. E foi nesse espaço que a paixão pela música encontrou um terreno fértil, permitindo que ideias criativas fossem compartilhadas e exploradas. As conversas e interações dentro do grupo não apenas fomentaram a troca de influências e experiências, mas também ajudaram a moldar a visão e a identidade do projeto que estavam prestes a iniciar.

Bestiario II é o segundo álbum do grupo, e como o próprio nome sugere, dá continuidade à temática explorada em seu antecessor. O conceito permanece centrado em uma fascinante coleção de descrições de criaturas, sejam elas reais ou mitológicas. Cada música funciona como uma entrada em um bestiário sonoro, onde melodias e arranjos muito bem compostos evocam a natureza, o mistério e a magia que envolvem esse assunto. Assim, Bestiario II não apenas complementa o trabalho anterior, mas também expande o universo sonoro e imaginativo do grupo.

Ainda que cada música tenha os seus méritos e valem apena, vou comentar sobre as músicas que mais gostei. Antes, por meio de um Manual De Criptozoología, uma voz nos dá as boas-vindas a essa nova viagem por esse universo fascinante e proporcionada pelo grupo: Um novo livro esperado chegou em nossas mãos. Voltaremos a viajar no tempo e no espaço com animais impossíveis, coloridos e arcanos, de terras distantes e oceanos passados. Para ouvir suas canções, abramos novamente o bestiário. Após essa narração introdutória, o disco começa por meio de “Mantícora”, uma criatura mitológica de origem persa, posteriormente incorporado à mitologia grega e que tem uma cabeça de homem, corpo de leão e cauda de dragão ou escorpião. O violão inicia com um deslizar solitário, mas logo outros instrumentos entram em cena, cada um trazendo sua própria cor e textura, enriquecendo a composição e criando uma harmonia que evolui gradualmente. Interessante uma música tão delicada para simbolizar uma criatura tão feroz. A ideia pode ser a de explorar uma narrativa sobre a coexistência de força e delicadeza, ou mesmo sobre a natureza enganosa das aparências.

É uma espécie de lula gigante que vive nas profundezas abissais. O tamanho excessivo de seus tentáculos cria grandes redemoinhos – semelhantes aos de Caríbdis no Estreito de Messina – e é capaz de afundar barcos. Já mencionado em bestiários medievais e por Jules Verne, hoje representa mais um mistério do oceano, talvez menos conhecido do que o nosso sistema solar. Com essas palavras, "Architeutis Dux -Kraken" nos é apresentada. A produção sonora é muito bem projetada para refletir a vastidão e a escuridão das águas profundas. Os arranjos experimentais são ricos em texturas e camadas, criando um senso palpável de profundidade e complexidade que é emblemático das lendas que cercam essa criatura.

“Pardus Alatus Nero”, um felino voador implacável e imponente, descrito na narração que antecede a música como, nobre, forte e musculoso, capaz de lançar-se ao oceano durante seus voos para caçar focas, ursos polares e até mesmo lobos marinhos. Ele desce até as profundezas marinhas em busca de um parceiro, e uma vez que encontra seu objeto de amor platônico, nunca o esquece, apesar de sempre retornar ao seu lugar de origem. Começa de forma serena, quase onírica. O violão o o hulusi – instrumento chinês de sopro - dominam a peça por um bom tempo, até que há uma mudança de direção com a entrada da seção rítmica e guitarra elétrica, trazendo energia e peso para a peça. Essa mudança de sonoridade, pode ser visto como o momento que a criatura revela sua verdadeira natureza, deixando a calmaria para assumir uma presença dominante e ameaçadora.

“Meiga”, aqui a banda parece está focada apenas em um tipo de meiga, porém, é bom deixar claro que as meigas podem ser divididas em diferentes tipos, como as "meigas chuchonas," que sugam a energia vital das pessoas, as "meigas de mal," que são mais maléficas e citadas na narração, além das "meigas boas" ou "meigas de bien" que são consideradas curandeiras ou protetoras. Por meio de uma sonoridade delicada produzida por teclados em camadas e violão, deitam alguns vocais emotivos que cantam sobre a dor causada por uma mulher que esmagou seu coração e lançou um feitiço sobre ele. A cominação da música e a sua narração, que de certa forma, pode ser um simples efeito de uma manipulação emocional, aqui ganha uma conexão com algo mais amplo e misterioso.

“Rainbow Leprechaun”, os Leprechaun são criaturas que têm suas raízes na mitologia irlandesa, onde são conhecidos como pequenos seres encantados, muitas vezes descritos como travessos e solitários e que guardam potes de ouro no final do arco-íris. A ideia do "Rainbow Leprechaun" é uma evolução dessa tradição, incorporando a magia e a cor vibrante dos arco-íris. A música começa com uma atmosfera grandiosa e sombria, marcada por arranjos sinfônicos que criam uma sensação de mistério e profundidade. A transição ocorre com a introdução de uma bateria de estilo militar acompanhada pelo baixo, que conduz a peça a um território mais robusto na quantidade de instrumentos utilizados. Segue-se um breve solo de escaleta, seguido por um de guitarra. Após esse momento de destaque, a música retorna a uma sonoridade serena, guiada pela flauta delicada e mantendo essa tranquilidade até o desfecho. Nem sempre é fácil achar uma relação da música e a criatura, mas ao menos a atmosfera grandiosa e sombria no início, pode ilustrar o Rainbow Leprechaun, uma figura que carrega um mistério e uma aura enigmática.

“Tardo”, não confundir com o ser lendário de mesmo nome, mas da mitologia dos povos indígenas da região da Amazônia. Aqui se trata do Tardo da Galícia, que é frequentemente retratado como uma entidade que vive nas áreas rurais e florestais. Pode ter uma aparência que mistura elementos humanos e animais, como orelhas pontudas ou olhos brilhantes. Gosta de aprontar com os seres humano, fazendo, por exemplo, com que se percam em florestas ou sintam sensações ruins como dores e pesadelos. Possui uma musicalidade bastante forte, principalmente por meio de uma seção rítmica enérgica e teclados sinfônicos. Enquanto isso, o vocal se apresenta da perspectiva do Tardo, ou seja, como uma figura poderosa e ameaçadora, que manipula e domina os medos e ansiedades da pessoa a quem se dirige. A sensação sinfônica de grandiosidade e mistério da música acaba ressoando com a natureza folclórica e enigmática da criatura.

 "Papilio Evanescens" é uma borboleta que tem a habilidade de desaparecer. Inicialmente uma lagarta planta, seu desaparecimento abrupto após se transformar em borboleta também costuma ser associado a características místicas, como a capacidade de viajar entre mundos ou dimensões. Musicalmente, a primeira parte da canção se destaca por sua atmosfera etérea, onde os vocais femininos sobrepostos – ainda que sejam da mesma vocalista - flutuam com uma delicadeza celestial. No núcleo da música, uma flauta encantadora surge acompanhada por batidas percussivas que trazem uma leveza rítmica. Então que a seção rítmica emerge com mais vigor, impulsionando a canção para um caminho de intensidade. Essa mudança de direção é marcada por um solo de teclado, seguido por um solo de guitarra, onde ambos edificam a composição. Dessa forma, Papilio Evanescens se torna uma metáfora viva para a música, personificando a transição da suavidade para a intensidade, da fragilidade para a força, tudo enquanto mantém sua natureza graciosa e transcendental. Além disso, sua forma de existir e desaparecer, nos faz questionar por meio da parte final de sua letra, sua ausência nos obriga a perguntar se há algo além ao morrer, sobre a morte e o mistério do que vem depois, levando à ponderação sobre a existência de uma vida após a morte ou uma continuação em outro plano.

“Draculis Scarabus” dá nome a uma criatura que exibe uma carapaça negra e reluzente e que é cuidadosamente adornada com marcas escarlates, evocando a imagem de olhos vigilantes ou garras afiadas. Esses detalhes não só acentuam, mas também amplificam sua aparência intimidadora. Inicialmente, algumas notas solitárias do baixo são acompanhadas por uma sonoridade que parece ter sido tirada de algum filme de terror dos anos 70, então a música entra em uma linha mais eletrônica, porém, ainda mantendo o toque atmosférico, que a essa altura também dá à faixa algumas leves pinceladas de psicodelia. Mais perto do fim, a bateria se intensifica, onde junta dos demais instrumentos, cria um clima quase que angustiante. Considero está a música que mais se aparenta com a criatura que representa, tendo o seu som convertido em uma essência sombria e experiência horripilante, tal qual a de se deparar com a criatura mencionada.

Assim como aconteceu com o começo do disco, no seu final também há uma breve mensagem do Manual De Criptozoología, já deixando em aberto que uma terceira parte pode acontecer: A história termina, segundo bestiário, treze outros novos seres povoam nossa imaginação. O mapa de Urbano Monte serviu como um quadro para outra grande viagem por lugares estranhos e novos. Vamos fechar este manuscrito agora, talvez outro esteja esperando.

Bestiário II é um disco encantador, tecido com uma tapeçaria sonora rica e harmoniosa. O álbum se destaca pela sua melodia envolvente e pela harmonia delicada que permeia cada faixa, criando uma experiência imersiva e cativante. Vale destacar também, a maneira como a banda ocasionalmente se aventura por territórios mais pesados, com momentos de musicalidade intensa que contrastam de forma eficaz com a suavidade predominante.

Cada música parece capturar a essência da criatura que representa, proporcionando um retrato sonoro vívido e expressivo. A transição entre a suavidade e a intensidade é executada com classe, permitindo que o álbum conte histórias ricas e variadas, todas ancoradas em uma narrativa coesa e sensível. Por fim, Bestiário II é um convite para uma jornada através de um universo sonoro repleto de contrastes, onde a beleza melódica e a força musical se encontram em uma dança harmoniosa, sempre respeitando a mitologia e a imagem evocada por cada composição.

NOTA: 9,4/10

Gênero: Rock Progressivo

Faixas:

1. Manual De Criptozoología - Continuación (0:26)
2. Capítulo 9 Mantícora (4:33)
3. Capítulo 10 Diaemus Gravida (6:18)
4. Capítulo 11 Architeutis Dux - Kraken - (3:27)
5. Capítulo 12 Pardus Alatus Nero (4:24)
6. Capítulo 13 Homo Narcissus - Leno Litore, Assinus Facies - (8:59)
7. Capítulo 14 Meiga (4:22)
8. Capítulo 15 Rainbow Leprechaun (6:53)
9. Capítulo 16 Grifelino Coloris (5:18)
10. Capítulo 17 Tardo (6:18)
11. Capítulo 18 Narvalus Transeo (4:46)
12. Capítulo 19 Papilio Evanescens (6:04)
13. Capítulo 20 Draculis Scarabus (5:15)
14. Capítulo 21 Auxia (6:50)
15. Manual De Criptozoología - Final (0:27)

Onde Ouvir: Bandcamp

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Luiza Brina - Prece (2024)

                                        
Luiza Brina é uma artista multifacetada, destacando-se como cantora, compositora e multi-instrumentista. Com uma voz delicada e uma habilidade musical ampla, ela tem raízes em Belo Horizonte e é uma presença marcante no cenário da música independente brasileira. Seu trabalho é uma fusão equilibrada de MPB, samba, jazz e folk, resultando em um som encantador e envolvente. Além de sua trajetória solo, Luiza é conhecida por suas colaborações frequentes com diversos artistas e bandas, onde contribui com sua sensibilidade e criatividade. Ela é vocalista, guitarrista e compositora da banda Graveola, além de também já ter feito parcerias com vários outros nomes da música como Ceumar, Arthur Nogueira, Chico Bernardes e Vovô Bebê, entre outros

Entre suas muitas qualidades, Luiza é altamente valorizada por sua habilidade de criar músicas que são tanto íntimas quanto universalmente impactantes. Suas composições têm o dom de captar a essência de vivências e sentimentos pessoais, ao mesmo tempo em que tocam temas que ressoam com um público variado. Essa capacidade de unir o pessoal ao coletivo confere a Luiza uma autenticidade e versatilidade musical notáveis, o que lhe garantiu uma boa base de admiradores.

Em Prece, seu álbum mais recente, ela mergulha em temas profundos e pessoais, convertendo suas introspecções em músicas que tocam profundamente o coração e a alma. As faixas do disco capturam sua jornada emocional e espiritual, oferecendo uma combinação de suavidade e intensidade. Com sua voz delicada e arranjos musicais bem acabados, Luiza cria uma atmosfera íntima, onde suas vivências e emoções são transmitidas de forma genuína e cativante. Prece se torna uma celebração da conexão humana e da busca por sentido, proporcionando ao ouvinte uma experiência musical que é ao mesmo tempo reflexiva e abrangente.

Cada detalhe do disco é tão suave e encantador, que dá a impressão de que, através da música, estamos nos ligando a algo além da nossa realidade cotidiana. É como se a música nos envolvesse em um abraço acolhedor e reconfortante, sussurrando em nosso ouvido que tudo vai ficar bem. A atmosfera de paz e meditação transmite uma profunda sensação de conforto e conexão sonora.

Através de cada uma de suas canções, a ideia parece ser a do ouvinte entrar em um espaço de contemplação e então poder encontrar consolo e esperança. Esse aspecto espiritual do disco é um de seus pontos mais fortes, criando uma experiência auditiva que é tanto curativa quanto inspiradora. Mostrando, por exemplo, em  "Oração 2" – que conta com a participação de Silvana Estrada -, que em momentos de vulnerabilidade, a necessidade de apoio torna-se evidente, indicando que apesar das incertezas, a busca pelo pertencimento e a conexão com algo além de si mesmo são fundamentais para a construção de uma vida com significado.

Em "Oração 18 (pra viver junto)", Luiza parece sugerir a importância de uma independência, porém, essa autossuficiência não significa isolamento, mas sim, um estado de autoconfiança e clareza sobre si mesmo e que facilita interações mais profundas e significativas. "Oração 13 (coração candongueiro)" parece soar como um consolo que é buscado na herança cultural africana, que por sua vez, é retratada como uma fonte profunda de sabedoria e resiliência, destacando a importância de tradições, rituais e histórias que moldam a identidade e a experiência. Aqui Luiza conta com a companhia de Sérgio Pererê.

Em "Oração 19 (oração pra Oxum)", Ianna Rennó se junta a Luiza para uma celebração da conexão entre o ser humano e o mundo natural, parecendo querer sugerir que a verdadeira paz pode ser encontrada na harmonização com a natureza e no cultivo de um espaço interior de acolhimento e tranquilidade. Em "Oração 15 (oração à Cobra Grande)", Luiza tem a parceria de Thiago Amud na composição e a participação especial é de Maurício Tizumba. Se trata de uma invocação à uma entidade nomeada Cobra Grande, sendo sua presença algo vital para um rio. É uma peça carregada de saudação e respeito, refletindo a importância dessa entidade na manutenção do fluxo e da pureza do rio.

Mesmo sem listar todas as faixas, é importante destacar que cada uma delas possui méritos e importância dentro do álbum. Todas desempenham um papel essencial no desenvolvimento do conceito e na construção da narrativa total de Prece, contribuindo de maneira única para a experiência de quem se deixar levar pelo disco, seja através de suas letras, melodias ou arranjos, formando assim uma tapeçaria coesa que enriquece o trabalho como um todo.   

Por falar em melodias e arranjos, é impossível não se maravilhar com a atenção aos detalhes, principalmente evidenciados no trabalho orquestral realizado por 19 mulheres. A complexidade dos arranjos se mistura de maneira bastante harmoniosa com a simplicidade e a elegância de cada uma das peças lideradas pela voz doce de Luiza. A orquestração é feita com enorme sensibilidade, onde cada uma das frases dos instrumentos é combinada de maneira condizente com a progressão da narrativa.

Por fim, o disco me coloca em um dilema: ou eu não o entendi muito bem, ou eu o entendi de uma forma tão intensa que isso gerou um impacto ainda maior do que eu esperava. De qualquer forma, o que é inegável, é que não vejo Prece simplesmente como uma coleção de faixas, é algo muito mais significativo. Com bons fones de ouvido em um quarto escuro, ele me provocou um turbilhão de emoções que vão muito além da experiência comum de ouvir música, ressoando profundamente com minhas próprias vivências e sentimentos. 

NOTA: 8,8/10

Gênero: MPB, Música de Câmara

Faixas:

Oração 1 - 1:17
2. Oração 2 - 3:51 part Silvana Estrada
3. Oração 18 (Pra viver junto)- 3:02
4. Oração 3 - 3:23
5. Rainha Belinha entoa Velhos de Coroa - 1:59 part Rainha Isabel Casimira
6. Oração 13 (Coração candongueiro) - 3:42 part Sérgio Pererê
7. Oração 19 (Oração pra Oxum) - 4:17 part Iara Rennó
8. Oração 15 (Oração à Cobra Grande) - 5:03 part Maurício Tizumba
9. Oração 17 (Risco) - 4:22
10. Oração 16 (Dios / Adiós) - 3:11  part LvRod
11. Oração 10 (Oração ao porto) - 2:35

Onde Ouvir: Plataformas de Streaming e Youtube

Blood Incantation - Absolute Elsewhere (2024)

 

Blood Incantation é uma banda de death metal formada em Denver, Colorado, que rapidamente se destacou na cena do metal extremo por meio de uma abordagem musical bastante atraente. Combinando o peso e a brutalidade do death metal com influências atmosféricas e elementos progressivos, eles criam uma sonoridade densa e que foge dos padrões convencionais. Suas composições são complexas e carregadas de camadas sonoras que transitam entre riffs intensos, passagens psicodélicas e mudanças de ritmo bem elaboradas.

Ao longo dos anos, a banda evoluiu artisticamente, com cada álbum trazendo novos níveis de complexidade técnica e inovação sonora. A música do grupo frequentemente se inspira em temas cósmicos, filosóficos e existenciais, o que se reflete tanto nas letras quanto nas atmosferas criadas em suas composições. Essas inspirações conferem um ar místico e quase ritualístico à sua música. Essa mistura de peso, brutalidade e sofisticação atmosférica, acaba cativando variados tipos de ouvintes, e não apenas amantes da música pesada e extrema.

Costumo evitar eleger o melhor álbum do ano antes de ouvir todos os lançamentos relevantes até o dia 31 de dezembro. No entanto, diante de uma obra como Absolute Elsewhere, posso dizer tranquilamente — e sem temer que algum lançamento futuro mude minha opinião — que em termos de death metal e metal progressivo, 2024 já atingiu seu auge. Um disco que estabeleceu enorme padrão de profundidade, técnica e impacto emocional. Não é uma experiência musical que sintetiza apenas o melhor do ano do gênero, mas apresenta um grau de excelência que vai demorar ser alcançado dentro desse nicho.

Dando uma conferida em alguns sites que escrevem bastante sobre esse tipo de som, vi que Absolute Elsewhere é um álbum conceitual que explora uma jornada profunda em busca de sentido e conexão dentro de um universo vasto, desconhecido e hostil. Cada faixa leva o ouvinte a uma travessia por paisagens cósmicas repletas de mistério e introspecção. As músicas "The Stargate" e "The Message" são divididas em três atos cada, estruturando-se em movimentos que transitam entre o caos e a harmonia, criando um forte equilíbrio entre tensão e tranquilidade.

"The Stargate [Tablet I]" abre o álbum com uma intensidade avassaladora, mergulhando o ouvinte em uma atmosfera de agressividade e turbulência. As guitarras afiadas e a instrumentação brutal, aliadas aos vocais carregados de raiva, criam um início que parece inabalável em sua ferocidade. No entanto, a faixa se transforma, abrindo caminho para uma sessão psicodélica. Esse momento de calmaria surreal segue por alguns minutos, e então a música retorna a um estado de vigor extremo, encerrando o movimento com uma explosão de energia selvagem que reafirma a natureza da banda.

"The Stargate [Tablet II]", traz uma colaboração de Thorsten Quaeschning, membro da banda Tangerine Dream. Essa parceria, logo deixa transparecer a direção sonora que a faixa tomará, mergulhando o ouvinte em paisagens sonoras oníricas e atmosféricas. A fusão de elementos eletrônicos e progressivos cria uma tapeçaria musical rica e envolvente, onde melodias etéreas flutuam suavemente, evocando sensações de introspeção. Um universo de tranquilidade e reflexão, contrastando com a ferocidade do movimento anterior – embora aqui aconteça alguns ataques de fúria também.

"The Stargate [Tablet III]", a terceira e última parte do primeiro épico apresenta uma alternância entre um clima opressivo e passagens de serenidade que remetem ao Opeth. Esses contrastes são habilmente explorados para criar uma dinâmica envolvente que prende o ouvinte e o guia por diferentes atmosferas. A peça também entrega uma inesperada influência da música indiana, trazendo texturas exóticas e um toque místico. O ponto alto, porém, vem com um dos riffs de guitarra mais memoráveis de todo o catálogo da banda.

"The Message [Tablet I]" inicia sua jornada sonora com uma explosão de agressividade e caos, mergulhando o ouvinte em um turbilhão de intensidade. No entanto, essa ferocidade é suavizada por arpejos delicados que criam uma atmosfera mais amena, proporcionando um respiro momentâneo em meio à tempestade sônica. Apesar desses momentos de tranquilidade, a faixa se desenvolve predominantemente por meio de vocais rosnados e uma instrumentação triturante que emergem a brutalidade característica da banda.

"The Message [Tablet II]", inicia com uma sonoridade tranquila. No entanto, essa tranquilidade é apenas uma introdução para algo muito mais intenso, onde surgem elementos marcantes e vibrantes que revelam o seu lado mais visceral e incendiário, com a banda imprimindo uma energia poderosa e explosiva. Porém, mesmo com essa intensidade, o som geral da peça mantém um toque leve, carregado de nuances psicodélicas que evocam paisagens sonoras e atmosferas etéreas que são claramente influenciadas pelo estilo da banda Eloy.

"The Message [Tablet III]", com mais de onze minutos de duração, é a faixa mais extensa do álbum e uma verdadeira viagem sonora. Desde os primeiros segundos, riffs intensos de guitarra rompem o silêncio, carregados de raiva e furor, enquanto a seção rítmica pulsa com uma energia incrível. No entanto, em seu núcleo, a faixa desacelera repentinamente, afastando a agressividade e dando lugar a uma sonoridade suave e contemplativa. Nesse ponto, o violão e texturas delicadas de sintetizadores surgem cuidadosamente, proporcionando uma transição celestial, mas que logo se dissolve para dar espaço ao retorno da instrumentação visceral e que segue até quase o final da música. O álbum se despede com a sutileza de notas de sintetizadores e o som distante de ondas se quebrando.

Por fim, é simplesmente fascinante a forma como a banda consegue criar uma fusão única, entrelaçando influências de grupos como Opeth em sua fase inicial e ainda adicionando sutis pinceladas de Pink Floyd e Eloy, especialmente em seu álbum Ocean. Absolute Elsewhere revela uma Blood Incantation que ao mesmo tempo em que preserva suas principais características, também aperfeiçoa com maestria a sua abordagem sonora, explorando uma paleta rica e diversificada que desconsidera qualquer tentativa de se encaixar em padrões estabelecidos.

NOTA: 10/10

Gênero: Death Metal, Metal Progressivo, Space Rock

Faixas:

The Stargate - 20:21

1. Tablet I - 8:21
2. Tablet II - feat. Thorsten Quaesching of Tangerine Dream - 5:09
3. Tablet III - 6:51

The Message - 23:24

4. Tablet I - 5:57
5. Tablet II - 5:59
6. Tablet III -11:28

Onde Ouvir: Plataformas de Streaming e Youtube

samlrc - A Lonnely Sinner (2024)

                                       

Realizei uma busca por informações sobre uma artista que descobri recentemente e que eu admito que chegou a ser exaustiva, mas para minha surpresa, também descobri que muito pouco sobre ela está disponível online. No entanto, a escassez de informações não diminuiu o impacto que sua música causou em mim; pelo contrário, fiquei instantaneamente encantado. As melodias e harmonias que ela cria possuem uma qualidade única, envolvendo-me de maneira profunda e emocional, quase como se cada nota fosse uma espécie de abraço sônico confortante.

Basicamente, a única informação que consegui encontrar sobre ela estava em seu perfil no Bandcamp. Lá, Samantha, que adota o pseudônimo samlrc, se apresenta de maneira breve. Ela se identifica como uma artista experimental, um termo que carrega consigo uma amplitude de possibilidades e em muitos casos um convite à inovação. Este é aquele tipo de rótulo que embora não forneça detalhes específicos, sugere uma inclinação para romper com as convenções musicais e experimentar texturas, estruturas e sonoridades que podem ir além das expectativas.

A Lonely Sinner, seu mais recente álbum, é uma obra encantadora que navega por uma diversidade de paisagens musicais. O disco apresenta uma mistura rica de estilos e texturas, indo desde linhas melódicas delicadas e quase etéreas até seções mais densas e intensas, caracterizadas por influências, por exemplo, do post-metal e shoegaze. O álbum também reserva espaços para momentos de serenidade, com segmentos ambientais enriquecidos por melodias acústicas suaves. Esses trechos mais complacentes contrastam de forma marcante com as explosões mais vigorosas.

Algo que ajuda o disco a se tornar um material impressionante, é sua coesão. Apesar da diversidade de sons e estilos, ele entrega com clareza que cada um dos seus elementos foi cuidadosamente escolhido e orquestrado para coexistir harmoniosamente. Uma demonstração incrível de uma habilidade em balancear a fragilidade com a força, permitindo que elementos aparentemente conflitantes convivam em harmonia, complementando-se em vez de competir entre si, soando como uma verdadeira celebração da capacidade experimental de uma artista que sabe como manejar uma grande variedade de influências e inspirações.

A Lonely Sinner é um álbum arrebatador e complexo que por meio de uma narrativa requintada e cativante, submerge nas páginas de uma espécie de diário emocional, onde cada faixa conta a história de uma ovelha solitária em busca de sua redenção e realização pessoal. As melodias delicadas e os arranjos melancólicos estabelecem uma atmosfera de vulnerabilidade e autoconhecimento. À medida que o álbum progride, somos levados por uma montanha-russa de sentimentos amplos.

Cada música desempenha um papel vital na construção da paisagem sonora vasta e rica que define a essência do álbum como um todo, porém, claro que há os seus destaques. Philautia evoca uma atmosfera melancólica e introspectiva, suas texturas sonoras proporcionam uma sensação convidativa de exploração aos cantos profundos de uma experiência emocional. Tudo é carregado de nuances e sentimentos complexos, oferecendo do começo ao fim uma verdadeira viagem sônica envolvente e introspectiva.

Flower Fields é uma belíssima peça de piano ambiente que transmite uma atmosfera etérea e contemplativa. A melodia delicada e envolvente do piano cria uma sensação de tranquilidade, serenidade e paz. Porém, suas letras adicionam uma profundidade emocional intrigante, usando de metáforas e símbolos para explorar temas complexos como mortalidade, transformação e desejo. É aquele tipo de música de melodia onde a sonoridade suave do piano e as letras introspectivas criam uma experiência extremamente agradável.

Storge é outra exploração fascinante através do âmago de uma dramaticidade musical brilhante. Uma peça de paisagens intensas e camadas sonoras densas, onde o seu humor sombrio é fascinante. Quando a energia da música é amplificada de forma impetuosa, tenho que admitir que não vou me lembrar da última vez que me arrepiei tanto ouvindo algo. Uma bela harmonia para expressar temas como a coragem, ambição e enfrentamento dos medos que podem nos impedir de alcançar nosso potencial de forma plena.

Tudo bem que o seu conceito acontece com base na perspectiva de uma ovelha, mas eu peguei essa ideia e a trouxe para a minha própria existência, o que acredito que também seja um dos objetivos do álbum, permitir justamente que o ouvinte se identifique e interprete as narrativas de forma pessoal, aplicando essas ideias ao contexto da sua própria vida, afinal, o disco não apenas conta uma história, mas parece incentivar uma reflexão individual.

Como mencionei, todas as faixas tem seus próprios méritos e contribuem para a criação de um disco extremamente coerente, onde cada uma de suas melodias abraçam de forma condizente suas narrativas. É evidente como cada composição foi cuidadosamente trabalhada para garantir uma harmonia musical que ecoa perfeitamente a intenção e visão por trás de todas as ideias pensadas em relação ao álbum. A Lonely Sinner é simplesmente sublime.

NOTA: 10/10

Gênero: Post-Rock, Post-Metal, Música Ambiente, Shoegaze

Faixas:

1. Lamb Theme - 1:48
2. Philautia - 12:00
3. Sinner - 7:55
4. Flowerfields - 4:44
5. Storge - 11:42
6. Sheep Theme - 3:05
7. For M. - 5:13
8. The Beauty Of The Present Moment - 2:38

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domingo, 19 de janeiro de 2025

30 anos de: Mellon Collie and the Infinite Sadness - The Smashing Pumpkins (1995)

                                        

Mellon Collie and the Infinite Sadness é o terceiro álbum de estúdio do Smashing Pumpkins e um dos trabalhos mais influentes da década de 1990. O álbum duplo é uma obra que transcende os limites do rock alternativo, explorando uma vasta gama de estilos musicais que vão do rock pesado e grunge às baladas introspectivas, além de passar por influências de música clássica, eletrônica e até traços de pop experimental. 

O disco é marcado por uma estética onírica e surreal na maneira como ele foi idealizado ao ser feito para ser ouvido como uma experiência imersiva e coesa, sendo mais do que uma simples coleção de músicas uma após a outra. Mellon Collie and the Infinite Sadness é um verdadeiro testemunho da ambição artística da banda e onde ela se consolida como um dos nomes mais relevantes e inovadores do rock alternativo – ainda que o disco vá muito além disso. Suas 28 faixas se tornaram um retrato da década e garantiram ao álbum um legado atemporal que continua a ressoar profundamente.

Billy Corgan apresentou o disco como um retrato da "condição humana" visto pelos olhos de um jovem em plena transição para a vida adulta. Sua intenção foi construir uma obra que capturasse a profundidade emocional da juventude — marcada pela intensidade das paixões, pelas incertezas e pela incansável busca por propósito. Ainda assim ele buscou ir além do contexto pessoal ou geracional ao criar algo que ressoasse de forma universal e atemporal.

O álbum é um equilíbrio entre extremos emocionais e sonoros. Ele alterna momentos de raiva visceral e energia explosiva com passagens de melancolia delicada que são pontuadas por breves respiros de otimismo contemplativo. Essa dualidade cria um mosaico de emoções que reflete não apenas os altos e baixos de uma fase específica da vida, mas também as experiências humanas que nos conectam através do tempo. O resultado é uma narrativa musical que captura tanto a urgência de um momento quanto a essência das emoções que nos tornam quem somos.

Os dois discos que compõem o álbum, Dawn to Dusk e Twilight to Starlight, funcionam como capítulos complementares de uma narrativa metafórica muito bem construída. Dawn to Dusk, o primeiro disco, é uma ode ao nascer e ao declínio do dia, simbolizando os momentos de euforia, descoberta e as lutas iniciais da vida. Já Twilight to Starlight mergulha no mistério envolvente da noite e no brilho distante das estrelas, algo que serve como uma representação mais profunda e contemplativa. Ele explora temas como introspecção, perda, amadurecimento e finalmente a aceitação. 

Juntos esses dois capítulos criam um ciclo emocional e temático que espelha as dualidades da existência como luz e sombra, caos e calma, alegria e tristeza, sempre dentro de um panorama musical e lírico que é tanto grandioso quanto intimista. Essa estrutura não apenas dá coesão à obra, mas também reforça sua universalidade e permite que cada ouvinte encontre fragmentos de sua própria jornada ao longo desse percurso artístico.

Billy Corgan revelou que Mellon Collie... foi bastante inspirada por The Wall e The White Album. Ele desejava que o disco funcionasse como um feito artístico que expressasse tanto a identidade criativa da banda quanto uma ampla gama de emoções e temas que ressoassem com o público. Essa ambição resultou em um álbum original e que soube explorar novos territórios sonoros enquanto ainda preservava a essência do rock alternativo da banda. De certa forma, podemos dizer que Corgan via o álbum como uma oportunidade de marcar uma geração e tentar capturar a intensidade da juventude e traduzi-la em algo atemporal. Essa abordagem que mesclava inovação e introspecção se posicionou como uma das maiores realizações artísticas do rock dentro de uma década cheia de clássicos. 

O álbum contém 28 faixas, então eu não irei abordar cada uma delas. Em vez de me estender sobre todas as músicas eu vou destacar algumas faixas. Em Dawn to Dusk, o primeiro disco, "Tonight, Tonight" rouba a cena por meio de sua linha orquestrada emocional que mistura uma espécie de sensação de euforia e esperança com uma melancolia suave e introspectiva. A faixa captura perfeitamente a ideia de uma luta interna em busca de algo mais profundo e significativo.

"Jellybelly" é uma faixa bastante crua, caótica e sem dúvida é uma das composições mais intensas do álbum ao carregar uma atmosfera quase claustrofóbica que reflete a confusão interna de uma luta por identidade. A música encapsula um sentimento de descontrole, como se alguém estivesse preso em uma tempestade de pensamentos e emoções conflitantes. Possui uma letra que é bastante direta e que completa essa sensação de desorientação causada pela música, transmitindo uma visão de alguém que tenta de toda forma encontrar sentido no núcleo de uma desordem completa da vida. 

“Zero” é uma das faixas mais marcantes não apenas do primeiro disco ou do álbum como um todo, mas de toda a carreira do grupo. Bastante enérgica devido a abordagem do seu tema central - que em meio a uma sonoridade crua, mergulha no vazio existencial e explora o desespero de se sentir preso em um ciclo interminável de apatia e frustração -, a peça entrega uma sonoridade visceral que parece gritar intensamente tanto quanto as palavras de Corgan.

"Bullet with Butterfly Wings" é o maior hino da banda, sendo sua música mais tocada na história dos concertos do grupo. A mistura de guitarras pesadas e vocais intensos, além de uma composição sombria cria uma atmosfera que não apenas expressa essa raiva, mas também canaliza uma energia catártica. Ao mesmo tempo que é uma música que dá voz ao desespero, ela também carrega um fio de determinação, o que faz dela um dos momentos mais poderosos do disco e de toda a carreira da banda. 

"Muzzle" é uma das minhas músicas preferidas da banda. Possui algumas ótimas transições entre os versos e o refrão, criando assim, um excelente equilíbrio entre tensão e libertação que se apoia em guitarras pulsantes e uma bateria e baixo marcante que criam uma base rítmica dinâmica, enquanto Corgan entrega uma de suas melhores performances vocais no disco, soando em um tom de muita paixão e emocional. Dentro dessa energia vibrante existe uma letra que traz reflexão sobre a liberdade pessoal e a busca por uma identidade mais autêntica.

"Cupid De Locke" atua como um momento de respiro dentro do fluxo intenso de Dawn to Dusk e que se destaca pelo seu contraste com as faixas mais pesadas do álbum. Musicalmente é construída sobre uma instrumentação de camadas suaves e que inclui texturas oníricas de cordas e alguns elementos percussivos discretos que criam uma atmosfera contemplativa. A narrativa é uma reflexão poética sobre o amor e o desejo enquanto se navega pelas incertezas da vida, soando bastante condizente com a sua sonoridade.

O segundo disco, Twilight to Starlight, também contem peças que se destacam, sendo uma delas, “1979”. Possui uma sonoridade distinta que combina muito bem o rock alternativo com o dream pop. A seção rítmica é simples, enquanto as guitarras são atmosféricas e os sintetizadores soam acolhedores. Sua vibe introspectiva fazem dela mais uma das faixas que possuem um contraste claro em relação às peças mais intensas do disco. Enquanto isso, Corgan pinta um retrato vívido de liberdade e descobertas juvenis, capturando tanto essa liberdade e as descobertas dessa fase quanto a sensação de perda que vem com sua passagem.

“Bodies” é uma das peças mais pesadas do disco. O contraste entre os momentos de explosão e breves instantes de pausa enfatiza ainda mais a energia crua da música. A performance vocal de Billy Corgan é desesperada e impetuosa, como se estivesse canalizando uma raiva interna e a transformando em som puro. Essa agressividade faz da faixa um dos momentos de mais catarse de todo o disco. A repetição de “Love is suicide” transmite uma visão crua e fatalista do amor ao explorar a sua natureza autodestrutiva, enquanto frustração, dor e a inevitabilidade de relações marcadas pelo sofrimento.

“Thirty-Three” é uma balada introspectiva e etérea que possui uma qualidade quase meditativa na progressão dos acordes que junto aos vocais contidos de Corgan transmite uma calma profunda, soando como se fosse o reflexo de uma aceitação emocional após períodos de turbulência. O arranjo é contido, mas profundamente expressivo e permite que cada elemento brilhe sem sobrecarregar a canção. É um momento de pausa e reflexão dentro do álbum e que traz um equilíbrio perfeito entre melancolia e esperança. Uma música que entrega uma sensação de paz após tempos turbulentos.

“X.Y.U.” com mais de sete minutos é a segunda música mais longa do disco – só ficando atrás de “Porceline Of The Vast Oceans” do disco um e que passa dos nove minutos. É mais um dos momentos mais caóticos do disco, alternando entre trechos furiosos e outros mais calmos, mas que aumentam a tensão da música. Possui uma seção rítmica agressiva e riffs densos de guitarra. Dentro desse turbilhão sonoro, uma letra cheia de imagens violentas e desconexas, soando como um grito primal de dor, traição e desespero e que reflete o lado mais sombrio do disco.

“In the Arms of Sleep” é uma balada melancólica que se apresenta como um dos momentos mais delicados do disco. Sua melodia conduzida por um violão cria uma atmosfera reconfortante, enquanto os vocais de Corgan soam de uma maneira contemplativa e que reforça o tom emocional de um trabalho lírico que aborda uma reflexão delicada sobre a necessidade de consolo em momentos de solidão.

“Tales of a Scorched Earth”, por mais que possa parecer inusitado, mas o seu início muito provavelmente pode ter servido de inspiração para o Dream Theater em “Panick Attack”. Com guitarras pesadas e vocais distorcidos, além de uma produção áspera, ela tem um ritmo implacável, onde as suas camadas de ruído criam uma sensação de desordem, porém, organizada. Apesar de sua abordagem brutal, há uma precisão na execução que evidencia a habilidade da banda em equilibrar o caos com a estrutura musical. Uma expressão niilista por meio de um grito de desespero e raiva e que exemplifica o tom mais sombrio de Twilight to Starlight.

Mais do que um simples álbum de rock alternativo, Mellon Collie and the Infinite Sadness é uma obra que transcendeu barreiras musicais e se tornou um marco cultural e artístico. Essa diversidade não fragmentou o álbum, muito pelo contrário, ela o transformou em uma experiência coesa e que reflete de certa forma tanto os conflitos internos quanto os dilemas coletivos de uma geração. Mesmo 30 anos após seu lançamento, ele permanece tão relevante quanto no dia em que foi lançado. Um álbum que não apenas capturou o espírito dos anos de 1990, mas também se estabeleceu como um testemunho atemporal do talento extraordinário do Smashing Pumpkins. 

NOTA: 10/10

Gênero: Rock Alternativo

Faixas:

Dawn to Dusk:

1. Mellon Collie and the Infinite Sadness - 2:52
2. Tonight, Tonight - 4:14
3. Jellybelly - 3:01
4. Zero - 2:40
5. Here Is No Why - 3:44
6. Bullet With Butterfly Wings - 4:17
7. To Forgive - 4:16
8. An Ode to No One - 4:51
9. Love - 4:21
10. Cupid de Locke - 2:50
11. Galapogos - 4:46
12. Muzzle - 3:44
13. Porcelina of the Vast Oceans - 9:21
14. Take Me Down - 2:52

Twilight to Starlight:

1. Where Boys Fear to Tread - 4:23
2. Bodies - 4:12
3. Thirty-Three - 4:10
4. In the Arms of Sleep - 4:12
5. 1979 - 4:25
6. Tales of a Scorched Earth - 3:45
7. Thru the Eyes of Ruby - 7:38
8. Stumbleine - 2:54
9. X.Y.U. - 7:07
10. We Only Come Out at Night - 4:05
11. Beautiful - 4:18
12. Lily (My One and Only) - 3:31
13. By Starlight - 4:48
14. Farewell and Goodnight - 4:22

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sábado, 18 de janeiro de 2025

Jon Anderson - True (2024)

                                         

Jon Anderson é um desses raros artistas cujo nome por si só evoca admiração e reverência. Sua voz que é pura como cristal, além de etérea e singular, ressoa como uma marca registrada inconfundível, sendo o coração pulsante do som icônico e inimitável do Yes em sua era de ouro. Ao longo dos discos mais emblemáticos e aclamados da banda, Anderson desempenhou o papel de alma vocal, tecendo com sua interpretação única um legado musical que transcende o tempo e toca profundamente diferentes gerações.

Além de sua trajetória com o Yes, Anderson também construiu uma carreira solo prolífica e diversificada ao explorar uma vasta gama de gêneros que vão desde a música eletrônica até a world music. Sempre soube reinventar-se sem perder sua essência. Sua versatilidade o levou a colaborações com grandes nomes da música, como por exemplo, o compositor Vangelis. Essas parcerias não só expandiram os horizontes de sua própria expressão artística, mas também reafirmaram sua capacidade de transcender fronteiras musicais e consolidaram seu lugar como um dos mais criativos e influentes músicos de sua geração.

Seu mais novo disco, True, em parceria com a banda The Band Geeks - que é renomada por suas performances detalhadas e habilidade em recriar sons intricados, especialmente em tributo ao próprio Yes -, Anderson explora temas e sonoridades que relembram o auge criativo da música progressiva dos anos de 1970, criando um álbum que combina a complexidade instrumental e a riqueza melódica típicas do gênero, com camadas de arranjos vocais elaborados e que é uma marca registrada de Jon ao longo de sua carreira.

"True Messenger" começa com energia e intensidade ao introduzir no álbum uma vibração forte e envolvente. Anderson está em ótima forma, entregando uma performance poderosa que realmente dá vida à música. Com arranjos bem construídos e um ritmo que flui de forma natural, a peça se destaca como uma excelente abertura para o álbum, já deixando claro que ele entregará para o ouvinte uma experiência empolgante.

"Shine On" proporciona uma continuidade empolgante no álbum. O destaque aqui vai para o trabalho de baixo que entrega um groove consistente e envolvente que serve como uma base sólida para o restante dos instrumentos. A linha de baixo, além de bem executada, adiciona uma profundidade à faixa, fazendo com que a peça brilhe de uma forma especial, com aquele toque de nostalgia fazendo lembrar os melhores momentos do Yes.

"Counties and Countries", com seus quase 10 minutos, é um dos dois épicos do disco. Logo no seu início a música entrega uma atmosfera cinematográfica. O trabalho de guitarra emocional e impactante faz claramente um aceno à Steve Howe, intensificando a narrativa da peça. Bastante dinâmica, é oferecido ao ouvinte uma jornada musical complexa e riquíssima em nuances onde tudo é produzido de uma maneira claramente bem pensada. Mas sem dúvida alguma, a melhor parte é a final, com teclas ao melhor estilo Wakeman e Anderson fornecendo um vocal intenso.

"Build Me an Ocean", nem sempre baladas lentas demais me agradam, no entanto, eu estaria sendo injusto se não reconhecesse o apelo emocional que é entregue aqui. Desde o início é criado uma atmosfera suave e contemplativa que se destaca pela sua simplicidade e sinceridade com que tudo é executado. Seus arranjos delicados conseguem soar muito dramáticos enquanto que a interpretação de Anderson carrega uma vulnerabilidade genuína que faz cada verso ressoar de maneira profunda.

"Still a Friend", novamente encontramos linhas robustas de baixo e vocais inspiradíssimos. Mas também existe um porém, inicialmente são muitas ideias musicais se sobrepondo e tornando o fluxo um pouco fragmentado. Embora essas mudanças constantes tragam variedade, a faixa acaba parecendo um pouco sobrecarregada, como se estivesse tentando explorar direções demais ao mesmo tempo. Poderia ser melhor? Poderia. O que não quer dizer deixou de ser  uma boa música – principalmente na sua segunda metade.

"Make it Right", inicia por meio de um violão cativante. Tem um andamento lento e é centrada nos vocais em uma melodia que fica facilmente na cabeça, revelando uma simplicidade que destaca a performance de Anderson e as emoções transmitidas. Só acho que a música poderia se beneficiar de passagens instrumentais mais amplas que dessem aos músicos a chance de explorar temas musicais com mais profundidade. Ainda assim, possui um belo solo de guitarra como destaque.

"Realization Part Two" soa como uma espécie de extensão natural da faixa anterior, mantendo um senso de continuidade e fluidez entre as duas músicas. A batida descontraída e as linhas melódicas simples criam uma atmosfera agradável e acolhedora, convidando o ouvinte a mergulhar na suavidade dos acordes e no charme da percussão.

"Once Upon a Dream", será que chamar de obra-prima serie exagero? De qualquer forma, esse épico de mais de 16 minutos é incrível.  Desde o começo a faixa se destaca como uma experiência musical poderosa. Toda a sua estrutura é impecável e cheia de contrastes envolventes que conseguem manter sua intensidade o tempo inteiro. Apesar de ser maravilhosa do começo ao fim, é a parte final que por meio do seu toque de grandiosidade e emoção, consegue capturar a essência do Yes em sua melhor fase, ao mesmo tempo em que é incluída uma magia particular de Anderson, criando um encerramento espetacular que amarra brilhantemente tudo que a peça entregou até aqui. Aquele tipo de música que já nasce com o status de clássico.

"Thank God" é a faixa que encerra o disco. Vi em algum lugar que Anderson aqui presta uma homenagem à sua esposa. Uma música discreta e suave quase como um suspiro final e que traz uma sensação de paz e amplitude. A simplicidade da composição e a leveza dos arranjos deixam um efeito acolhedor que permite que o ouvinte absorva e reflita sobre toda a experiência do álbum. Uma excelente maneira de encerra esse disco lindíssimo. 

É realmente gratificante ver artistas como Jon Anderson, aos 79 anos, ainda dedicados a entregar trabalhos sólidos e relevantes. Isso não apenas evidencia sua paixão duradoura pela música, mas também ressalta sua habilidade de continuar inovando e se conectando com o público. True é uma demonstração clara de como ele mantém sua essência musical ao mesmo tempo em que explora novas sonoridades e ideias. E é exatamente essa combinação de respeito pelo legado e vontade de se reinventar que o torna tão especial.

NOTA: 9.2/10

Gênero: Rock Progressivo

Faixas:

1. True Messenger - 5:50
2. Shine On - 4:18
3. Counties and Countries - 9:51
4. Build Me an Ocean - 3:19
5. Still a Friend - 5:01
6. Make It Right - 6:07
7. Realization Part Two - 3:32
8. Once upon a Dream - 16:31
9. Thank God - 3:48

Onde Ouvir: Plataformas de Streaming e Youtube

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