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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

60 anos de: A Love Supreme - John Coltrane (1965)

                       

Com certeza que A Love Supreme é um dos álbuns mais brilhantes da história do jazz instrumental e ao mesmo tempo uma das obras mais espiritualmente profundas já criadas. Não se trata apenas de um marco na carreira de Coltrane, o disco engloba o que é o reflexo de uma transformação pessoal, algo como se em determinado momento, artista e música se fundissem e se tornasse um só. 

Coltrane viveu um período de excelência em termos de crescimento musical e espiritual justamente nos anos que antecederam o lançamento de A Love Supreme. Embora tratasse de um nome conceituado no mundo do jazz instrumental desde a década de 1950, foi a partir de 1960 – época em que formou o seu próprio quarteto -, que Coltrane mergulhou ainda mais na ideia de desenvolver uma identidade própria dentro do universo do jazz. Foi durante essa fase nova que ele expandiu sua abordagem ao saxofone e ao jazz modal, além de buscar novas ideias que lhe trariam sonoridades inovadoras que lhe abririam caminhos para uma expressão artística cada vez mais pessoal. 

Vale destacar também que seu interesse pela espiritualidade se tornou cada vez mais evidente ao longo dos anos. Em 1957, período em que já se encontrava completamente livre das drogas e do álcool, decidiu iniciar uma caminhada de fé enquanto buscava uma maior compreensão sobre a existência e o propósito da vida. A partir dessa visão, começou a estudar inúmeras tradições religiosas. Neste registro, o mestre do saxofone entrega sua devoção ao jazz modal ao explorá-lo com intensidade emocional extrema e um significado espiritual profundo. 

Ao longo de 1964 Coltrane buscava de maneira incansável novas possibilidades em que ele pudesse ampliar os limites do jazz. Durante esse período ele experimentou novas abordagens no saxofone e desenvolveu ainda mais o uso de escalas modais, além de aprofundar sua técnica conhecida como sheets of sound (camadas sonoras). Esse conceito caracterizado por frases musicais extremamente rápidas, sobrepostas e densas, criava uma sensação de fluxo contínuo e quase hipnótico, algo completamente novo dentro do que era conhecido como improviso jazzístico. Para Coltrane a música não era apenas arte, também era um meio de conexão entre o mundo humano e um mundo capaz de transmitir sentimentos de devoção. Inclusive, essa visão se manifesta de forma clara e direta na dedicatória que escreveu no encarte do disco, revelando então a sua intenção sincera por trás da obra: Neste álbum, eu humildemente pretendo oferecer algo que tenha significado espiritual. Toda glória a Deus.

Paralelamente a tudo isso o seu interesse por outras culturas musicais também crescia. Ele se aprofundava no estudo da música indiana, tendo ficado fascinado pelos ragas e pela ideia de improvisação como um meio de transcendência espiritual. Além disso, ele também absorvia a influência dos ritmos africanos, especialmente as estruturas com polirritmias e que passaram a desempenhar um papel fundamental em sua abordagem rítmica. Essas influências, combinadas à sua evolução pessoal e artística prepararam o terreno bastante rico para a concepção de A Love Supreme.

Esse período também foi marcado por uma dedicação quase obsessiva ao estudo e à prática musical. Segundo músicos que conviviam com Coltrane, era relatado que ele passava incalculáveis horas praticando sem fazer qualquer tipo de pausa, completamente imerso em sua busca por um som cada vez mais profundo e expressivo. Para ele o saxofone não era apenas um instrumento, mas uma extensão da sua espiritualidade. Inclusive, também existem relatos de que Coltrane frequentemente tocava enquanto rezava ou meditava, pois essa era uma forma de manter sua prática musical e o seu crescimento interior.

Alice Coltrane, sua esposa na época, também comentou sobre essa profunda conexão entre música e fé, lembrando que ele frequentemente falava sobre sua visão espiritual da arte sonora. Para Coltrane cada nota e cada melodia, além de cada improviso, tudo tinha o potencial de expressar aspectos do divino e funcionava muito bem como uma ponte para dimensões superiores da existência. Essa crença não apenas guiava sua abordagem musical, mas também moldava sua filosofia de vida. 

É fato que A Love Supreme não foi apenas um álbum, mas também uma declaração poderosa de fé. Embora seus discos anteriores já apresentassem uma inclinação para o jazz modal e a experimentação, aqui tudo construído com um propósito muito mais claro e profundo. Coltrane não apenas explorou novas fronteiras musicais, ele também usou sua arte como um meio de expressar sua gratidão a Deus. Cada nota e cada frase foi composta e tocada com a intenção de transmitir um sentido de reverência que serviu como um convite para os ouvintes embarcarem em uma jornada sonora de conexão com o divino. 

Durante a gravação do disco, Coltrane se preparou de maneira quase ritualística, como se cada sessão fosse uma extensão de sua prática espiritual. O baterista Elvin Jones disse na época que o saxofonista estava em um estado quase meditativo enquanto tocava. Antes de cada sessão, se isolava em seu quarto e passava um tempo rezando e meditando, buscando se conectar com algo maior, uma força que pudesse guiá-lo em sua performance. Então quando entrava no estúdio para gravar, sua energia e concentração eram tão intensas que parecia ir além do ambiente físico e criava uma atmosfera única. 

O quarteto de John Coltrane em A Love Supreme era composto por músicos excepcionais que apenas elevaram ainda mais a ideia de Coltrane para o disco. McCoy Tyner no piano com sua abordagem modal e poderosa criava uma base harmônica sólida e expansiva. Jimmy Garrison no contrabaixo era fundamental para estabelecer o ritmo por meio de linhas meditativas que reforçavam a espiritualidade da música. O baterista Elvin Jones trouxe uma intensidade de polirritmias e uma energia dinâmica que criou uma interação constante com Coltrane e contribuiu para o fluxo contínuo do disco. 

Juntos os quatro músicos formaram uma unidade quase telepática e um coletivo onde cada um se apoiava no outro para explorar inúmeras possibilidades sônicas. A dinâmica entre eles era tão profunda que a interação parecia ultrapassar o simples ato de tocar juntos. A natureza modular da música de Coltrane e suas escalas e harmonias abertas permitia que cada músico tivesse a liberdade para improvisar e criar uma sensação de constante descoberta e evolução. Contudo, o que realmente destacava esse quarteto era a coesão única que mantinha todas as ideias musicais unidas, permitindo que cada improvisação fluísse de maneira orgânica e sem perder a essência da jornada musical como um todo.

“A Love Supreme Pt I – Acknowledgement” inicia o disco com um baixo marcante em um padrão hipnótico que funciona como uma espécie de mantra musical e que estabelece desde o início o caráter meditativo do álbum. Então que Coltrane entra com um improviso fervoroso sobre essa base constante e explora a melodia com intensidade crescente que soa quase como uma oração musical. É possível sentir que o seu saxofone parece estar em uma espécie de busca interior, variando dessa forma entre momentos de serenidade e explosões emocionais. 

A melodia se desenvolve de uma forma que mais parece um ritual, onde a sensação de uma oração musical é eminente com cada nota carregando um peso espiritual e emocional. Esse equilíbrio entre contemplação e êxtase é o que torna essa uma introdução tão poderosa para o disco e prepara o ouvinte para uma experiência sonora imersiva e profundamente significativa. Mas ainda vale destacar que na parte final da peça, Coltrane surpreende a todos introduzindo algo completamente inesperado, ele canta – algo raro em sua carreira - as palavras “A Love Supreme” repetidamente, o que reforça ainda mais a natureza devocional do disco. 

"A Love Supreme Pt II – Resolution", se apresenta com um caráter mais enérgico e que carrega uma tensão rítmica e força expressiva. Se a sonoridade da peça de abertura foi mais meditativa, aqui as coisas soam mais marcantes e poderosas ao conduzir o ouvinte a um novo estágio da jornada espiritual de Coltrane. O pianista McCoy Tyner assume um papel essencial ao adicionar acordes intensos e percussivos que combinam perfeitamente com a pulsação rítmica precisa da música, criando assim, uma base harmônica robusta. Seu piano não apenas sustenta a estrutura da peça, mas também adiciona camadas de dramaticidade.

Enquanto isso, Elvin Jones transforma sua bateria em uma verdadeira tempestade rítmica que preenche o espaço com batidas dinâmicas e que impulsionam a música com uma sensação de movimento constante. Sobre essa estrutura vibrante, Coltrane se entrega a um solo apaixonado e visceral que explora variações modais com uma profundidade impressionante. Cada frase de seu saxofone carrega uma carga emocional intensa e que reflete sua devoção e entrega espiritual. 

“A Love Supreme Pt III - Pursuance" inicia com um solo destruidor de bateria repleto de variações rítmicas e que prepara o terreno para uma das performances mais eletrizantes do álbum. Diferente dos movimentos anteriores em que a espiritualidade se manifesta ora de forma contemplativa e ora em expressões intensas de devoção, o que predomina aqui é uma sensação predominante de estar no meio de uma jornada frenética rumo à iluminação e à compreensão divina. As teclas entregam acordes expressivos e que sustentam a estrutura harmônica enquanto Coltrane toma a frente com um solo incendiário. Seu saxofone se torna um canal de expressão emocional extrema e navega com uma fluidez impressionante entre registros altos e baixos, explorando toda a extensão do instrumento. A cada frase a peça parece se expandir como se estivesse tentando romper os limites do físico e do espiritual.

Esse caráter quase maníaco da improvisação encontrado em “Pùrsuance” reflete em uma espécie de sede insaciável de conhecimento e soa como se Coltrane estivesse usando cada nota e cada frase para expressar sua busca interior por algo maior, mais ou menos como se o seu saxofone se tornasse um veículo de questionamento e descoberta.

A interação entre os músicos atinge aqui um nível de coesão impressionante, onde cada um contribui para a construção de um fluxo sonoro que nunca se acomoda, muito pelo contrário, ele sempre parece estar avançando e sempre explorando novas possibilidades. O resultado é um dos momentos mais virtuosos e arrebatadores do disco, uma verdadeira catarse sonora que transcende a música em si e se transforma em um verdadeiro clamor espiritual.

"A Love Supreme Pt IV – Psalm" finaliza o disco de uma maneira sublime por meio de uma peça que se apresenta como uma espécie de oração sem palavras, onde cada nota do saxofone de Coltrane ressoa como um verso recitado com devoção. Diferente dos movimentos anteriores, aqui não há um pulso rítmico fixo ou uma estrutura convencional de jazz. Em vez disso, a música flui de maneira mais livre e introspectiva, como se o músico estivesse canalizando diretamente sua fé por meio do instrumento.

O aspecto mais fascinante desse movimento é que ele segue a cadência e a entonação de um poema que o próprio Coltrane escreveu e incluiu no encarte do álbum. Embora não seja falado, o poema pode ser "ouvido" através das frases melódicas do saxofonista que possuem a capacidade de imitar a inflexão natural da voz ao declamar um texto sagrado. Essa abordagem confere à peça um caráter profundamente contemplativo, com a ausência de ritmo fixo permitindo que a melodia flutue sem amarras e soe carregada de emoção. 

O impacto de A Love Supreme foi algo que ultrapassou as fronteiras que cercavam o jazz e se tornou também um marco não apenas musical, mas espiritual e cultural. Sua recepção foi extremamente positiva e consolidou Coltrane como um músico que elevou o seu som a um nível de expressão mística e filosófica nunca visto. O sucesso comercial do disco também foi algo impressionante, principalmente em se tratando de uma obra tão ousada e experimental. A Love Supreme passou das quinhentas mil cópias vendidas nos primeiros anos e garantiu seu status de clássico instantâneo. A crítica o reconheceu como um dos discos mais inovadores da história e elogiou sua fusão de improvisação livre e estruturas modais, além da sua profundidade emocional.

Sua influência se espalhou por diversos outros gêneros musicais, como no rock em que artistas como Carlos Santana e The Doors beberam assumidamente na fonte da espiritualidade e da intensidade do álbum. No hip-hop a sua abordagem rítmica e sua liberdade estrutural inspiraram produtores e músicos que buscavam pensar fora da caixinha. Na música eletrônica a sua exploração de camadas sonoras e mantras repetitivos ecoaram nas atmosferas criadas por artistas contemporâneos. A dimensão espiritual da obra fez com que ela fosse adotada até mesmo por diversos movimentos religiosos e filosóficos. Muitos enxergam o disco como uma espécie de oração universal e que é acessível a qualquer um que busque uma experiência extranatural por intermédio da música. 

A Love Supreme é uma jornada sonora que reflete a entrega total de Coltrane à sua arte e à sua busca interior, além de sua fé. Cada acorde e cada improvisação é enxarcado de uma devoção profunda e que faz parecer que ele está se comunicando diretamente com o divino por meio de seu saxofone. A complexidade harmônica e a liberdade expressiva de sua improvisação não são apenas marcas de um virtuoso, mas a manifestação de uma jornada espiritual que é tanto pessoal quanto universal.

Até hoje, A Love Supreme permanece como um dos maiores legados da história do jazz, inclusive, não sendo apenas um marco na evolução do gênero, mas também um testemunho eterno da jornada de Coltrane. Sua busca sempre foi por algo além da música, por uma conexão profunda e significativa com o cosmos e que pudesse ressoar em cada nota tocada. Uma obra-prima que continua a inspirar gerações, enquanto as convida à uma jornada interior de descoberta e transcendência.

NOTA: 10/10

Gênero: Jazz Espiritual

Faixas:

1. A Love Supreme Pt I – Acknowledgement - 7:42
2. A Love Supreme Pt II – Resolution - 7:17
3. A Love Supreme Pt III - Pursuance - 10:42
4. A Love Supreme Pt IV – Psalm - 7:02

Onde Ouvir: Plataformas de Streaming e Youtube

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Ghais Guevara - Goyard Ibn Said (2025)

                        

Ghais Guevara é um rapper que embora não tenha um nome muito reconhecido e possua a popularidade de outros nomes do gênero, tem uma base fiel de admiradores devido a sua autenticidade. Guevara se destaca na cena do hip-hop contemporâneo principalmente em meio ao movimento underground e se distingue por abordar temas profundos e relevantes, ao mesmo tempo em que mistura uma reflexão social com uma fluidez lírica.

Transitando entre o trap e o rap mais tradicional, Guevara usa de uma maneira bastante inteligente a música como uma plataforma que explora questões pessoais, políticas e sociais, sempre por meio de letras que são repletas de metáforas e simbolismos que refletem sua visão de mundo ao mesmo tempo que fazem que o ouvinte se questione sobre a realidade em que vive. 

Embora a sua carreira ainda esteja em um estágio em que ele busca maior visibilidade no mainstream, Guevara tem um impacto significativo dentro do nicho que ele ocupa, com muitos críticos e público da cena reconhecendo seu potencial. Desta forma, sua presença é forte no cenário do rap independente, onde continua a explorar seu próprio crescimento pessoal sempre com uma voz autêntica e sem medo de se expor.

Goyard Ibn Said é um disco que marca um momento significativo na trajetória de Guevara, afinal, não é apenas sua primeira grande obra completa, mas também seu primeiro trabalho sob o selo da gravadora Fat Possum Records. 

O disco se destaca por sua abordagem conceitual, sendo dividido em duas partes distintas com cada uma explorando diferentes nuances da experiência dentro da cultura hip-hop. Ao longo das faixas, o rapper constrói uma narrativa rica e multifacetada, refletindo sobre os desafios, os triunfos e as contradições que acompanham a ascensão à fama no universo do rap. Através de letras afiadas e uma identidade sonora particular, o álbum mergulha em temas que vão desde a autenticidade artística e a luta contra a comercialização da música até as pressões sociais e psicológicas impostas pela indústria.

Na primeira parte do disco, Guevara constrói a narrativa da ascensão meteórica de um protagonista fictício, Goyard, uma figura que encarna o arquétipo do anti-herói dentro do universo do hip-hop mainstream. Goyard representa o artista que atinge o sucesso absoluto, navegando por um mundo repleto de luxúria, ostentação e poder, onde a fama e a fortuna são vistas como a consagração definitiva. As faixas dessa primeira seção mergulham nas tentações e prazeres do estrelato ao explorarem a grandiosidade do reconhecimento público, a adulação dos fãs, as riquezas acumuladas e a sensação intoxicante de estar no topo da indústria. Ao mesmo tempo, Guevara tece reflexões sobre o deslumbramento e a superficialidade que muitas vezes acompanham esse tipo de trajetória e sugere que a glória do sucesso podem ser tão efêmera quanto sedutora.

No entanto, a segunda parte do álbum toma um rumo inesperado e mais sombrio, trazendo um forte contraste com a euforia inicial. O foco passa a ser as experiências trágicas e os desafios devastadores enfrentados por Goyard no auge de sua carreira. Aqui Guevara destrói a ilusão do sucesso absoluto, expondo as consequências da fama desenfreada e a verdadeira face da indústria musical. As músicas exploram temas como a exploração dos artistas, a pressão insustentável para se manter relevante, o isolamento emocional, os abusos e as traições que podem acompanhar o estrelato. Desta forma, a narrativa se desenrola como uma advertência contra as armadilhas do show business e entrega uma visão crítica e realista sobre o custo psicológico e humano da busca incessante pelo topo.

Musicalmente o disco se destaca pela sua abordagem que equilibra experimentalismo e tradicionalismo dentro do hip-hop. O álbum percorre uma ampla gama de estilos ao incorporar elementos clássicos do boom bap, recortes sofisticados de soul e jazz, sintetizadores futuristas, batidas quebradas e texturas eletrônicas vanguardistas, resultando em uma estética sônica que consegue transitar com fluidez entre o passado, o presente e o futuro do gênero. 

Guevara demonstrou seu domínio tanto como compositor quanto produtor ao escrever e produzir a maior parte de Goyard Ibn Said, entregando ao álbum sua visão artística completa, porém, ele contou com a colaboração de produtores e artistas que o ajudaram a expandir ainda mais a sonoridade do projeto. Nomes como purdyflacks, LILITH e DJ Haram que trouxeram suas próprias influências e estilos, enriquecendo ainda mais a produção.

Sobre os artistas que aparecem em algumas faixas, Yoko McThuggin, com seu estilo agressivo contribui para a faixa "Monta Ellis", trazendo uma energia intensa e visceral. FARO, em "Yamean", entrega uma performance introspectiva que se completa com o tom melancólico da música. ELUCID, em "Bystander Effect", traz uma abordagem lírica contemplativa, enquanto McKinley Dixon, que é conhecido por seu lirismo e estilo técnico, acrescenta sua marca em "The Apple That Scarcely Fell", com uma entrega carregada de emoção.

Além das contribuições vocais e de produção, o álbum conta com o toque especial de alguns instrumentistas que foram essenciais para que fosse possível chegar na sonoridade do projeto. Seb Zel, com sua guitarra em “L4” adiciona camadas de textura meditativas, enquanto Desmond Teague, com seus instrumentos de sopro, cria uma atmosfera sonora única, trazendo uma elegância e uma sofisticação quase jazzística em "The Apple That Scarcely Fell", que se entrelaça com os elementos do hip-hop, na mesma faixa ainda tem a participação de Annie Elise, com seu trabalho de cordas. 

A combinação desses talentos que acompanharam Guevara, conferiu a Goyard Ibn Said uma grande versatilidade sonora e permitiu que o álbum fosse além das fronteiras tradicionais do hip-hop. O resultado é um disco musicalmente rico e repleto de texturas que proporcionam uma experiência imersiva para o ouvinte.

NOTA: 8,1/10

Gênero: Hip Hop

Faixas:

1. Introduction To Act 1 - 1:29
2. The Old Guard Is Dead - 3:04
3. Leprosy - 3:25
4. 3400 - 3:22
5. I Gazed Upon The Trap With Ambition - 3:59
6. Monta Ellis (feat Yoko McThuggin) - 3:12
7. Yamean (feat FARO) - 3:25
8. Camera Shy - 3:06
9. Introduction To Act 2 - 0:55
10. Bystander Effect (feat ELUCID) - 3:05
11. 4L - 4:06
12. The Apple That Scarcely Fell (feat McKinley Dixon) - 3:55
13. Branded - 3:25
14. Critical Acclaim - 3:46
15. Shaitan's Spiderweb - 4:42
16. You Can Skip This Part - 4:49

Onde Ouvir: Plataformas de Streaming, Bandcamp e Youtube

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Anna B Savage - You & i are Earth (2025)


Anna B Savage sempre esteve cercada por um ambiente que a estimulou culturalmente, dito isso, é óbvio que não ia demorar muito para que a arte não apenas começasse a fazer parte, mas também começasse a desempenhar um papel fundamental em sua vida. Afinal, vindo de uma família que sempre valorizou a expressão artística, ela cresceu absorvendo diversas influências que a levaram a desenvolver sua própria identidade musical.

Intimista e confessional são duas palavras chaves para que possamos definir a suas músicas, assim como a maneira delicada e intensa que são abordados temas como, por exemplo, o amor em suas diversas formas, a dor da perda e as complexidades da condição humana. Liricamente costuma permear por uma honestidade crua e uma vulnerabilidade clara, o que acaba criando uma conexão genuína com quem as ouve. Através de suas melodias e de sua voz expressiva, Anna constrói um universo sonoro particular. 

You & I Are Earth é o seu terceiro álbum de estúdio, um trabalho que captura um momento de transformação marcado por um processo de cura e uma redescoberta curiosa do mundo ao seu redor. A própria cantora descreve o disco como "uma carta de amor a um homem e à Irlanda", evidenciando a carga emocional e as conexões profundas que abraçam o trabalho como um todo. Musicalmente, o álbum se destaca por uma sonoridade íntima e expansiva, na qual elementos naturais como o som das ondas do mar se entrelaçam de uma maneira orgânica por meio, por exemplo, de arranjos de cordas, criando desta forma uma atmosfera imersiva. 

"Talk to Me", a ideia de uma sensação de recuperação emocional, amor e conexão profunda com outra pessoa é exposta dentro de uma música de tonalidade introspectiva, envolvente e guiada por uma melodia delicada e contemplativa. Com uma interpretação sincera e sonoridade minimalista, a peça convida o ouvinte a se perder na profundidade da sua mensagem e beleza melancólica de suas notas. “Lighthouse” é uma balada intimista que se destaca por sua delicadeza e atmosfera acolhedora. O arranjo instrumental é centrado em um violão e alguns toques pontuais e sutis de piano que adicionam profundidade e emoção. Os vocais de Savage reforçam o tom melancólico e esperançoso da canção, conduzindo a narrativa de forma envolvente. A letra faz uso da poderosa metáfora de um farol, representando um amor que serve como guia e porto seguro. “Donegal” é uma comovente homenagem à região irlandesa de mesmo nome, local esse onde Savage passou parte de sua vida. O arranjo contém melodias envolventes que transportam o ouvinte para as paisagens de Donegal e cria uma experiência emotiva e nostálgica.

“Big & Wild” é uma faixa curta, porém intensa, que encapsula muito bem a energia da natureza. Com uma sonoridade que transmite uma sensação de liberdade, a peça evoca imagens de vastas paisagens. Os arranjos podem sugerir uma conexão visceral com o mundo natural, enquanto a interpretação vocal reforça a sensação de entrega e aventura. “Mo Cheol Thú” é construída sobre a suavidade de um violão dedilhado, enquanto a melodia se desenvolve gradualmente e ganha mais corpo com uma onda envolvente de teclados que intensifica sua carga sentimental. A voz de Savege carrega ternura e sinceridade, transmitindo a euforia e a vulnerabilidade de estar apaixonada, criando dessa forma uma experiência musical imersiva e cativante.

“Incertus” é um interlúdio com menos de um minuto de duração e funciona como uma ponte atmosférica que cria uma transição sutil entre duas faixas. “I Reach for You in My Sleep”, com uma instrumentação contida, deixa espaço para os vocais de Savage que se destacam com sua intensidade emocional crua e sincera. Através dessa simplicidade sonora e a ideia lírica que traz uma sensação de intimidade profunda e doçura no relacionamento, a música se torna um espelho de emoções profundas. 

“Agnes” conta com a participação da cantoira, Anna Mieke. Se trata de um pop folk onde o violão estabelece a base melódica, enquanto bateria e baixo são executados de uma maneira envolvente, criando dessa forma um ótimo movimento e fluidez. Os trabalho de clarinetes são reconfortantes e acrescentam um toque etéreo e atmosférico à canção. Musicalmente combina bastante com a narrativa de temas de natureza, transformação, misticismo e o desejo de conexão com forças além da compreensão humana.

"You & I Are Earth", a faixa título também é aquele momento em que Anna sintetiza todos os temas centrais do álbum e explora a interconexão entre indivíduos e a Terra de forma poética. A melodia e os arranjos se desenvolvem por meio de harmonias expansivas, texturas orgânicas e ritmos sutis que remetem à respiração do próprio mundo natural. A belíssima instrumentação conta com elementos acústicos e atmosféricos. "The Rest of Our Lives" é a última faixa do disco e serve como um desfecho contemplativo carregado de emoção, do tipo que reflete sobre um relacionamento que se desenvolveu de forma lenta e cuidadosa ao longo dos anos. Com uma melodia suave a música consegue equilibrar nostalgia e otimismo ao capturar a incerteza do amanhã ao mesmo tempo em que abraça a beleza da jornada. 

Por meio de You & I Are Earth, Anna B Savage consegue unir letras introspectivas a arranjos musicais que evocam tanto paisagens emocionais quanto físicas, criando desta forma uma experiência auditiva imersiva. Suas composições exploram a dualidade, como, por exemplo, entre fragilidade e força ou intimidade e vastidão, resultando em músicas que não apenas narram sentimentos, mas os fazem ressoar no ouvinte. A instrumentação é rica em detalhes e texturas orgânicas que ampliam a sensação de conexão com a natureza e com o próprio eu. Resumindo, o álbum se desdobra como um espaço de contemplação e descoberta, onde cada faixa funciona como um fragmento de um universo maior e repleto de emoção, além de vulnerabilidade e pertencimento.

NOTA: 7,8/10

Gênero: Folk de Câmara

Faixas:

1. Talk to Me - 3:34
2. Lighthouse - 4:14
3. Donegal - 3:24
4. Big & Wild - 1:36
5. Mo cheol Thú - 4:50
6. Incertus - 0:56
7. I reach for you in my Sleep - 3:42
8. Agnes (ft. Anna Mieke) - 3:47
9. You & i are Earth - 2:56
10. The rest of our Lives - 2:23

Onde Ouvir: Plataformas d Streaming, Bandcamp e Youtube

sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

40 anos de: Hounds of Love - Kate Bush (1985)

                       

Hounds of Love é o quinto disco da cantora, compositora e produtora britânica Kate Bush, sendo muitas vezes considerado sua obra-prima e um marco que representa um retorno brilhante após três anos desde o lançamento do excelente The Dreaming (1982), um álbum experimental e audacioso que apesar de também aclamado pela crítica, teve uma recepção comercial modesta. Com Hounds of Love, Bush não apenas reafirmou seu talento visionário, mas também alcançou um nível de sucesso sem precedentes em sua carreira.

O álbum se destacou por sua abordagem ao equilibrar experimentação artística e acessibilidade pop que acabaria conquistando tanto a crítica especializada quanto o público como um todo. Seu single principal, Running Up That Hill (A Deal with God) se tornou-se um dos maiores clássicos da artista e demonstrou sua habilidade de unir letras introspectivas a uma sonoridade atmosférica e envolvente. 

A estrutura do álbum também reforça sua singularidade ao ser dividido em duas partes distintas, com o lado A – que leva o nome do disco - oferecendo músicas mais diretas e radiofônicas, enquanto que o lado B, intitulado The Ninth Wave traz faixas que juntas geram a suíte conceitual que narra a história de uma pessoa à deriva no mar que luta pela sobrevivência enquanto passa por visões e reflexões. Esse formato narrativo aliado ao uso pioneiro de samplers e uma produção sofisticada fez de Hounds of Love um dos álbuns mais influentes da música pop experimental.

Após o lançamento de The Dreaming, Bush optou por se afastar temporariamente do cenário musical. Em vez de seguir imediatamente para um novo projeto sob a pressão da indústria fonográfica, ela tomou a decisão estratégica de construir seu próprio estúdio de gravação, o Solstice Studios em sua casa na zona rural da Inglaterra. Essa mudança representou um ponto importante em sua carreira, pois lhe proporcionou um nível de liberdade criativa inédito. Livre das restrições impostas pelos estúdios comerciais e das limitações de tempo e orçamento, Bush explorou novas possibilidades sonoras com a calma que nunca pode ter antes. Esse ambiente íntimo e controlado foi fundamental para a concepção de Hounds of Love.

Vale destacar também, que a tecnologia desempenhou um papel essencial na construção do sonora do disco ao permitir que Kate expandisse ainda mais os limites da experimentação musical. Um dos elementos centrais dessa abordagem foi o uso do Fairlight CMI, um dos primeiros sintetizadores digitais equipados com sampler e que revolucionou a maneira como os artistas podiam manipular e integrar sons em suas composições. Para Bush não chegava a ser algo inédito, afinal, ela já havia explorado esse instrumento em The Dreaming, porém, foi em Hounds of Love que ela o utilizou de forma mais requintada. 

O álbum realmente se destaca em como consegue mesclar instrumentos acústicos e eletrônicos ao fundir cordas, percussões tribais e vozes etéreas com camadas sintéticas geradas pelo Fairlight CMI. A oposição que ocorre entre o orgânico e o tecnológico resultou em uma sonoridade envolvente que se tornou uma das marcas registradas do disco. Além disso, Bush também utilizou gravações em fita manipuladas sobrepondo e distorcendo elementos sonoros para alcançar efeitos imersivos.

- Hounds of Love -

"Running Up That Hill (A Deal with God)" é o single principal do disco e um dos maiores sucessos da carreira de Kate Bush, tanto em impacto cultural quanto em desempenho comercial. A música traz uma abordagem poética sobre empatia e compreensão nas relações humanas. A escolha do título original, A Deal with God, foi considerada controversa por algumas gravadoras, levando Bush a acrescentar Running Up That Hill para evitar possíveis restrições comerciais. A faixa se destaca por sua batida hipnótica que se sustenta por uma percussão eletrônica e sintetizadores etéreos que criam uma atmosfera emocionalmente envolvente. O vocal característico de Bush eleva ainda mais a carga dramática da canção, o que a torna uma experiência sonora única. Não tem como deixar de destacar também que apesar de já ser um clássico desde seu lançamento, a música teve um ressurgimento em 2022 quando foi utilizada em uma cena icônica de Stranger Things. 

"Hounds of Love", a faixa-título é uma das músicas mais emblemáticas do disco, tanto pela sua intensidade sonora quanto pela profundidade lírica. A instrumentação é rica e densa, além de ser marcada por uma bateria intensa e que cria uma sensação de urgência, enquanto as cordas adicionam uma dimensão quase cinematográfica à música. A estrutura musical, com suas transições dinâmicas e arranjos complexos reflete perfeitamente o tema central da letra que explora o medo e o desejo que surgem quando se entrega ao amor de forma mais intensa e vulnerável.

"The Big Sky" apresenta um dos momentos mais dinâmicos do álbum. Com um ritmo acelerado, pulsante e uma vibração dançante, a canção reflete a celebração da vastidão do céu e a maravilha da natureza. Kate por meio de sua performance vocal transmite uma sensação de liberdade. O uso de percussão animada e sintetizadores alegres confere à música uma sensação como a de uma observação do céu que convida o ouvinte a refletir sobre as infinitas possibilidades do universo. A letra também tem um tom de introspecção, mas com uma abordagem leve ao capturar a simplicidade e a maravilha de olhar para cima e perceber a vastidão da vida e do mundo natural.

"Mother Stands for Comfort" traz com ela um dos momentos mais atmosféricos do disco ao se desenvolver dentro de uma sonoridade etérea construída por meio de camadas de sintetizadores que criam uma sensação de imersão, quase como se estivéssemos sendo envoltos por um manto de névoa. O ritmo tranquilo e a voz suave de Kate adicionam uma qualidade hipnótica. A letra sugere um relacionamento entre mãe e filho, mas a natureza desse vínculo é ambígua e desconcertante. Embora a mãe seja retratada como um símbolo de conforto e refúgio, algo em sua proteção parece suspeito. Um belo contraste entre melodia serena e tensão emocional. 

"Cloudbusting" é uma das faixas mais emocionais de Hounds of Love, com uma narrativa comovente inspirada na história real de Wilhelm Reich, um psicanalista e cientista controverso, e seu filho Peter. A canção é uma recriação de um momento traumático da infância de Peter quando ele testemunhou seu pai sendo perseguido e preso pelas autoridades, após ser alvo de investigações por suas ideias não convencionais sobre energia e a psique humana. Reich foi preso em 1956 e sua história de perseguição política e científica é o pano de fundo para “Cloudbusting”. O arranjo é lindíssimo e traz um trabalho intenso e dramático de cordas, a bateria é envolvente e há uma excelente força rítmica, enquanto isso, os sintetizadores dão uma qualidade transcendental à música, como se o ouvinte estivesse sendo transportado para dentro da mente de Peter que está imersa em uma realidade de confusão e angústia. 

- The Ninth Wave –

“And Dream of Sheep" já começa a suíte por meio da representação de um momento de exaustão e desespero, onde a protagonista está sozinha no oceano cercada pela escuridão e pelo frio, enquanto estabelece um estado emocional que mostra sua luta entre o desejo de sobreviver e a tentação de se render ao sono. Musicalmente possui uma textura suave que reforça a ideia de um sonho. O arranjo é minimalista e apresenta piano, sintetizadores e vocais quase sussurrados. Essa leveza instrumental cria uma dualidade com a ansiedade da letra e intensifica o contraste entre a esperança e o medo da morte. 

“Under Ice” é uma peça minimalista e sombria construída em torno de cordas sintetizadas. Os acordes criam uma pulsação rítmica irregular e uma instrumentação fria e mecânica que parece querer reforçar a sensação de um ambiente hostil. Aqui Kate canta de uma maneira mais tensa e contida, aumentando dessa forma a dramaticidade da música que liricamente evoca a sensação de aprisionamento e desorientação. A personagem parece sonhar que está patinando sobre um lago congelado, mas logo percebe algo ou alguém preso sob o gelo.

"Waking the Witch" possui uma letra que descreve uma mulher sendo julgada, acusada e condenada como bruxa. A protagonista é interrogada e as palavras que a cercam são ameaçadoras e carregadas de uma sensação de perseguição. Musicalmente começa com um piano calmo e vozes suaves, mas rapidamente se transforma em um caos sonoro com vocais distorcidos, batidas intensas e vozes ameaçadoras que parecem representar inquisidores. Possui uma abordagem fragmentada e experimental, além de mudanças bruscas de ritmo e vocais sobreposto.

"Watching You Without Me" carrega uma atmosfera misteriosa criada por um clima melancólico. A base feita pelos sintetizadores é deliciosa, enquanto a bateria eletrônica minimalista ao fundo traz uma espécie de balanço hipnótico. Os vocais parecem soar ao longe, o que reforça o conceito da letra que tem a ideia de transmitir um profundo senso de frustração e impotência. A narradora parece estar separada de seu amado enquanto o observa sem que ele possa vê-la ou ouvi-la.

"Jig of Life" adota uma musicalidade mais folclórica e celta através de arranjos de violão, uma percussão alegre e uma melodia enérgica que evoca a imagem da clássica festa da terceira classe do Titanic em que o Jack dança com a Rose. Essa sonoridade mais vibrante contrasta com a tensão das faixas anteriores. Kate canta de uma maneira animada e bastante expressiva uma música que carrega uma letra mais otimista ao falar sobre o impulso de viver, de lutar e de se renovar, além de transmitir uma sensação de esperança e de estar prestes a romper com o passado. 

“Hello Earth”, musicalmente é um dos momentos mais épicos do disco. Inicialmente entrega uma sonoridade suave e misteriosa, mas não demora muito e ela se eleva para uma seção orquestral incrível que inclui alguns vocais em coro e belíssimos arranjos de cordas. Os vocais suaves de Bush criam uma sensação de introspecção e solidão, enquanto a instrumentação evoca imensidão e até um pouco de misticismo. Sua letra representa um momento de transcendência e contemplação, onde a protagonista exausta e à beira da morte entra em um estado de quase sonho. 

"The Morning Fog" tem uma sonoridade reconfortante com um ritmo animado e arranjo de piano e cordas que cria uma sensação de serenidade. A melodia é do tipo acolhedora e os vocais de Kate são suaves e delicados quase como um suspiro de alívio. A música traz uma sensação de paz por meio de uma estrutura simples e que encerra a suíte de forma otimista. Diferentemente das faixas anteriores, marcadas pelo desespero, medo e alucinações, "The Morning Fog" traz uma sensação de renascimento e esperança. Após a longa luta contra a morte, a protagonista parece finalmente emergir para a superfície e encontrar a salvação. 

Na época de seu lançamento, Hounds of Love foi recebido com aclamação tanto da crítica quanto do público e consolidou Kate Bush como uma das artistas mais inovadoras de sua geração. O álbum demonstrou não apenas sua habilidade única como compositora e produtora, mas também sua capacidade de equilibrar experimentação e acessibilidade ao criar um trabalho que era simultaneamente ousado e comercialmente viável. 

A prova disso é que o disco estreou diretamente no topo das paradas britânicas, desbancando ninguém mais e ninguém menos que Like a Virgin da Madonna, garantindo a Bush seu segundo álbum número um no Reino Unido. O sucesso foi impulsionado principalmente pelo single "Running Up That Hill (A Deal with God)" e que se tornou um de seus maiores hits. A música não apenas conquistou o público europeu, mas também abriu portas para Bush no mercado estadunidense, onde alcançou posições elevadas na Billboard Hot 100, algo que até então ela não havia conseguido com suas obras anteriores.

Além do desempenho comercial, vale destacar também que o álbum foi celebrado pela crítica por sua produção inovadora, sua fusão de elementos eletrônicos e acústicos e sua abordagem cinematográfica das composições. O lado A do disco, repleto de faixas mais diretas e acessíveis, foi elogiado por sua força melódica e riqueza instrumental, enquanto isso, o lado B impressionou pela ambição conceitual e sua narrativa musical envolvente.

Ao longo dos anos, Hounds of Love só cresceu em prestígio, sendo frequentemente citado como um dos álbuns mais influentes da década de 1980 e um marco na música pop experimental. Seu impacto se estendeu por décadas, inspirando até hoje diversos artistas e resgatando novas gerações de ouvintes, especialmente após o ressurgimento de "Running Up That Hill" nas paradas em 2022 graças à sua inclusão na série Stranger Things. Com isso, o legado do álbum foi ainda mais reforçado, reafirmando sua posição como uma das obras mais visionárias e atemporais da história da música popular. Uma obra-prima. 

NOTA: 10/10

Gênero: Art Pop, Pop Progressivo

Faixas:

- Hounds Of Love -

1. Running Up That Hill - 5:03
2. Hounds Of Love - 3:03
3. The Big Sky - 4:41
4. Mother Stands For Comfort - 3:08
5. Cloudbusting - 5:10

- The Ninth Wave -

6. And Dream Of Sheep - 2:45
7. Under Ice - 2:21
8. Waking The Witch - 4:18
9. Watching You Without Me - 4:07
10. Jig Of Life - 4:04
11. Hello Earth - 6:13
12. The Morning Fog - 2:34

Onde Ouvir: Plataformas de Streaming e Youtube

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

50 anos de: Voyage of the Acolyte - Steve Hackett (1975)


Steve Hackett é o tipo de guitarrista que cativa qualquer apreciador de um toque refinado e elegante nas seis cordas. Mais do que ser lembrado – ou, para alguns, conhecido – como o ex-guitarrista do Genesis, Hackett merece ser celebrado por sua brilhante trajetória solo que foi construída sobre uma base de qualidade excepcional e versatilidade impressionante.

Sem jamais se prender a rótulos, o guitarrista transita com naturalidade por uma ampla gama de estilos sempre imprimindo sua identidade única independentemente do gênero que explora. Seja no jazz-rock, pop, rock progressivo, música brasileira, blues, violão clássico ou até na música erudita, sua abordagem é sempre sofisticada e inspiradora. No fim das contas, para Steve Hackett pouco importa o território musical que escolhe desbravar — onde quer que esteja, sua música floresce de uma forma inconfundível.

Voyage of the Acolyte não é apenas o seu primeiro álbum solo, mas também a primeira incursão solo de qualquer membro do Genesis. Com um forte caráter progressivo e experimental, o disco revela a identidade musical distinta de Hackett, tanto como compositor quanto como guitarrista. Suas faixas exploram uma rica tapeçaria sonora, entrelaçando várias de suas influências.

Durante sua passagem pelo Genesis, já se destacava por uma abordagem inovadora da guitarra ao introduzir técnicas como tapping e volume swells, além do uso sofisticado de texturas e efeitos que ampliavam a paisagem sonora da banda. No entanto, dentro do grupo ele frequentemente sentia que suas ideias não eram plenamente aproveitadas. Foi nesse contexto que Voyage of the Acolyte surgiu como uma oportunidade para Hackett expandir sua criatividade sem amarras, permitindo-lhe desenvolver sua própria visão musical de maneira mais ampla e pessoal. O álbum não apenas reafirmou seu talento como compositor e instrumentista, mas também marcou o início de uma jornada solo repleta de experimentação e originalidade.

A principal inspiração por trás de Voyage of the Acolyte veio do tarô, uma influência que se manifesta tanto nas letras quanto na atmosfera envolvente das músicas. Cada faixa remete a um arcano maior e tece uma narrativa simbólica que reflete a jornada humana através do mistério e da descoberta. Essa temática mística permeia toda a obra, o que lhe dá um caráter quase ritualístico. O próprio título do álbum evoca a trajetória do "acólito", um aprendiz espiritual que busca sabedoria e evolução por meio das experiências da vida.

A sonoridade de Voyage of the Acolyte é uma fusão de rock progressivo com influências sinfônicas e folk que são enriquecidas por toques eletrônicos e elementos experimentais. O álbum destaca-se por sua construção cuidadosa de texturas sonoras, sendo esse, um dos maiores trunfos de Steve Hackett tanto como guitarrista quanto como arranjador. Sua abordagem sonora perfeita incorporou efeitos atmosféricos e gravações em camadas, além de uma estética quase cinematográfica na estrutura das faixas. 

O álbum se inicia com "Ace of Wands", uma faixa eletrizante que prende o ouvinte desde os primeiros segundos e marca a sua identidade com uma guitarra vibrante e complexa – um verdadeiro cartão de visitas do estilo de Hackett. A energia da música é impulsionada pela excelente bateria de Phil Collins, enquanto John Hackett adiciona uma camada extra de intensidade com sua flauta executada de maneira agressiva e dinâmica. Uma composição repleta de mudanças de andamento, soar de sinos e passagens de guitarra que transitam entre o virtuosismo e a sensibilidade melódica. Mais do que apenas a faixa de abertura, "Ace of Wands" também marca o início de uma carreira brilhante e duradoura. 

"Hands of the Priestess Part I" é uma peça etérea e envolvente conduzida por uma flauta delicada e expressiva que imprime uma atmosfera encantadora. A guitarra de Hackett com seu tom misterioso e levemente assombrado evoca paisagens sonoras que ele ajudou a construir durante sua passagem pelo Genesis, porém, aqui ganha uma nova abordagem ao soar como algo mais pessoal e expansivo. O resultado é uma composição de beleza hipnótica com cada nota parecendo estar flutuando no.

"A Tower Struck Down" é uma das faixas mais intensas e sombrias do álbum, mergulhando em uma sonoridade agressiva quase caótica. A poderosa base rítmica é ancorada por Mike Rutherford, que entrega uma linha de baixo robusta e sendo reforçada ainda mais pela presença de Percy Jones em um segundo baixo. Hackett explora tons ásperos e atmosferas densas enquanto a faixa evolui de forma imprevisível. Em determinado momento, a composição se transforma em uma paisagem sonora inquietante, onde camadas de guitarras se fundem a uma multidão gritando, explosões e efeitos abstratos, criando um verdadeiro clímax de tensão. 

"Hands of the Priestess Part II" aprofunda ainda mais a atmosfera etérea introduzida na primeira parte ao trazer uma sonoridade ainda mais suave e delicada. Os teclados adicionam uma sutil luminosidade ao tom melancólico e sombrio do álbum, equilibrando mistério e tristeza sem dissipar completamente a aura introspectiva da composição. Embora tenha somente pouco mais de um minuto e meio, funciona como um complemento perfeito para a Parte I, encerrando-a com elegância e coesão. 

"The Hermit" traz uma sonoridade suave e melancólica, mas com algo que era novidade na época, o vocal de Steve Hackett, que inclusive se revela surpreendentemente competente e emotivo, acrescentando uma camada adicional de profundidade à música. Uma voz sutil e introspectiva que se se entrelaça perfeitamente com a guitarra que continua a impressionar com sua habilidade única de transmitir vários sentimentos. O título da faixa evoca a imagem de um eremita solitário, enquanto a música com sua atmosfera etérea remete a um tipo de conto de fadas sombrio. É possível perceber algo no som dessa peça que antecipa a essência de A Trick of the Tail.

"Star of Sirius" é uma das faixas mais complexas e dinâmicas do disco, começando de forma suave, mas logo se transformando em uma montanha-russa sonora. Os vocais de Phil Collins brilham como nunca, talvez porque ele esteja se expressando de forma autêntica, sem tentar emular o estilo de Peter Gabriel. Sua performance aqui é íntima e poderosa e traz uma nova camada de humanidade à música. A transição para um estilo mais jazzy e violento é abrupta, marcada pelo teclado que prepara o terreno para uma nova direção sonora. A guitarra de Hackett que constrói uma parede de som imponente encaixa-se perfeitamente nesse novo contexto ao criar uma tensão crescente. A faixa então se desvia novamente, agora adotando uma sonoridade mais suave onde os teclados e flautas se combinam de maneira extremamente harmoniosa antes de nos levar a uma complexa seção de bateria, Mellotron e mais uma vez a guitarra de Steve.

"The Lovers" é uma breve e suave faixa acústica que oferece um merecido descanso após a complexidade vibrante de "Star of Sirius". Com sua simplicidade delicada a música cria um espaço de reflexão e proporciona um alívio de intensidade e que serve como uma ponte emocional que prepara o terreno para o clímax final do álbum

O álbum se encerra de maneira apoteótica com "Shadow of the Hierophant", um verdadeiro épico que é a culminação de tudo o que foi construído ao longo do disco. A música começa suavemente com os vocais etéreos e cristalinos de Sally Oldfield que conduz o ouvinte por variações musicais intrincadas, ora delicadas e ora poderosas. Sua voz com sua qualidade única cria uma jornada sensorial que se desenrola de maneira quase mágica.

À medida que a música avança, uma passagem instrumental dramática interrompe a voz de Sally pela primeira vez, oferecendo um contraste que prepara o terreno para as próximas transformações. Essa alternância entre os vocais e a instrumentação se repete em momentos distintos, até que em um pico quase psicodélico, toda a banda se junta em uma explosão sonora que leva a música a um novo nível de intensidade.

O ponto de virada chega quando Steve Hackett introduz uma mudança de andamento, conduzindo a faixa para sua seção final, onde a complexidade se desdobra em uma sequência de atmosferas que se alternam e se complementam de uma maneira impecável. O clímax do álbum é de uma dramaticidade impressionante, com a guitarra de Hackett e seu estilo único se misturando ao Mellotron, sinos e o restante da banda, criando desta forma um dos finais de música mais emotivamente espetaculares que conheço. 

Ao longo de cinco décadas de uma prolífica carreira solo, Steve Hackett presenteou o universo da música com inúmeros álbuns de altíssima qualidade, cada um refletindo sua criatividade inesgotável e sua habilidade ímpar como compositor e instrumentista. No entanto, nenhum deles conseguiu alcançar a perfeição singular de seu álbum de estreia. Voyage of the Acolyte permanece uma obra-prima insuperável, um trabalho que transcende o tempo e continua a ser uma referência dentro do rock progressivo. Sua musicalidade é refinada, requintada e de extremo bom gosto, sendo executada por músicos excepcionais que ajudaram a dar vida a uma visão artística única.

Mais do que apenas um grande disco, Voyage of the Acolyte representa um marco na história do gênero, sendo também um testemunho do talento de Hackett e de sua capacidade de criar atmosferas sonoras envolventes e repletas de emoção. Um trabalho magistral do mais prolífico músico solo a emergir de uma das maiores bandas de rock progressivo dos anos 70.

NOTA: 10/10

Gênero: Rock Progressivo

Faixas:

1. Ace of Wands - 5:23
2. Hands of the Priestess, Part I - 3:28
3. A Tower Struck Down - 4:53
4. Hands of the Priestess, Part II - 1:31
5. The Hermit - 4:49
6. Star of Sirius - 7:08
7. The Lovers - 1:50
8. Shadow of the Hierophant - 11:44

Onde Ouvir: Plataformas de Streaming e Youtube

House Of Lords - Full Tilt Overdrive (2024)


O House Of Lords retorna em grande estilo com Full Tilt Overdrive, seu décimo quarto álbum de estúdio, provando mais uma vez que a banda é sinônimo de consistência e qualidade no hard rock. Liderados pelo icônico vocalista e produtor James Christian, o grupo entrega um disco enérgico e impecavelmente produzido, repleto de faixas memoráveis que reafirmam seu status como uma das forças mais resilientes do gênero.

Desde sua estreia homônima em 1988, o House Of Lords consolidou uma base de fãs leal e uma reputação sólida como uma banda que combina melodia, poder e sofisticação. A formação atual conta com James Christian (vocais e baixo), o virtuoso guitarrista Jimi Bell, o tecladista e compositor Mark Mangold e o baterista Johan Koleberg. Juntos, esses músicos criaram um trabalho coeso e inspirado, dando continuidade ao legado da banda sem perder a relevância.

O disco abre com a intensa "Crowded Room", que dá o tom do álbum com sua pegada agressiva e riffs poderosos. Na sequência, "Bad Karma" se destaca como um single irresistível, com um refrão pegajoso e um solo espetacular de Jimi Bell. A faixa-título, "Full Tilt Overdrive", é uma explosão de energia, impulsionada por guitarras incendiárias e uma performance vocal de tirar o fôlego.

Outro momento marcante é "Taking The Fall", uma balada de estrutura impecável que remete ao estilo de bandas como Gotthard, com sua melodia envolvente e um toque emotivo que cativa instantaneamente. Já "Not The Enemy" combina peso e melodia de maneira brilhante, enquanto os teclados de Mangold adicionam uma profundidade única à faixa.

O álbum também se aventura em territórios menos convencionais com "You're Cursed", que começa com um clima cinematográfico antes de explodir em um hard rock vibrante, e "State of Emergency", que aborda temas sociais com uma combinação de letras impactantes e uma base instrumental poderosa. O encerramento épico fica por conta de "Castles High", uma faixa de quase 10 minutos que transporta o ouvinte para uma narrativa quase fantástica, culminando em um clímax musical memorável.

A produção cristalina, a cargo de James Christian e Mark Mangold, merece elogios. Cada instrumento encontra seu espaço na mixagem, permitindo que os detalhes das composições sejam apreciados. Os solos de guitarra de Jimi Bell, em especial, são um show à parte, demonstrando técnica e emoção em igual medida. E a voz de Christian é simplesmente perfeita para o som da banda.

Full Tilt Overdrive foi lançado no Brasil pela Shinigami Records, facilitando o acesso dos fãs brasileiros a este trabalho incrível. Para os amantes do hard rock, este é um álbum essencial que mantém viva a chama do House Of Lords e reforça sua posição como uma das grandes bandas do gênero. Indispensável!

NOTA: 9/10

Gênero: Hard Rock

Faixas:
1. Crowded Room (4:45)
2. Bad Karma (4:11)
3. Cry Of The Wicked (5:09)
4. Full Tilt Overdrive (4:57)
5. Taking The Fall (4:29)
6. You're Cursed (5:34)
7. Not The Enemy (4:09)
8. Don't Wanna Say Goodbye (4:01)
9. Still Believe (4:37)
10. State Of Emergency (4:47)
11. Castles High (9:25)

Onde Ouvir: Plataformas de Streaming e mídia física através da Shinigami Records.

Viima - Väistyy Mielen Yö (2024)

                       

A banda finlandesa Viima retornou de um longo hiato de 15 anos com o álbum Väistyy Mielen Yö, marcando o seu renascimento na cena do rock progressivo. Após o lançamento de dois discos em 2006 e 2009 a banda desapareceu sem dar pistas de um possível retorno e deixou na cabeça daqueles que a acompanharam na época uma incerteza sobre o futuro. No entanto, em 2024 eles surpreenderam a todos com o que é sem dúvida o seu trabalho mais refinado até hoje.

A formação do quinteto é praticamente a mesma de 15 anos atrás, com Hannu Hiltula (flauta, teclados, vocal e backing vocals), Mikko Uusi-Oukari (guitarras e Mellotron), Mikko Väärälä (bateria, vocal, teclados e sinos) e Aapo Honkanen (baixo). A única mudança significativa foi a entrada de Risto Pahlama (vocal, teclados e Mellotron), substituindo Kimmo Lähteenmäki nos teclados. Mesmo tendo saído da banda, Lähteenmäki ainda faz uma participação especial na faixa "Vuoren Rauha."

Väistyy Mielen Yö é composto por cinco faixas que demonstram uma maturidade musical impressionante ao combinar elementos sinfônicos com incursões jazzísticas e toques de folk, além de referências à música clássica. A banda se destaca por soar sempre fresca e inovadora, evitando uma sonoridade repetitiva ou derivativa. É claro que influências de bandas como Camel, Genesis e Jethro Tull, assim como dos conterrâneos Tabula Rasa e Scapa Flow, são perceptíveis, mas a banda consegue incorporar essas referências sem comprometer sua originalidade.

A primeira faixa, "Tyttö Trapetsilla", é uma peça compacta e melódica com destaque para os temas de flauta, violão e guitarra solo. A seção rítmica e as inserções pontuais de órgão também contribuem para a atmosfera animadora do início do álbum. "Äiti Maan lapset" é uma suíte de quase 19 minutos que se desenvolve de forma coesa se alternando entre passagens serenas e momentos mais intensos, porém, sem exageros. A peça se destaca pelas camadas de teclados, linhas compactas de baixo, guitarras robustas e um vocal adequado que complementa a rica instrumentação.

"Pitkät Jäähyväiset" começa com uma flauta delicada e notas de teclado antes de evoluir para o tema central que é marcado por uma batida envolvente. A música ganha peso à medida que avança com riffs de guitarra intensos e uma seção rítmica pulsante que culmina em uma atmosfera psicodélica criada pelos teclados. "Perhonen" é um dos destaques do álbum, começando de forma hipnotizante e crescendo em intensidade até alcançar um momento mais pesado, com bateria e baixo em destaque, enquanto a guitarra e o teclado criam um clima sinfônico e atraente. "Vuoren Rauha" é a última faixa do álbum, inicia com sons de vento criados por Kimmo Lähteenmäki, seguidos por uma serena combinação de piano e voz. A música evolui com a entrada da bateria e do Mellotron que conferem um caráter épico à peça que tem seu clímax em um solo de órgão e termina de forma sutil com sons de vento e uma voz distante.

Väistyy Mielen Yö é um trabalho coeso, onde os músicos atuam como um conjunto sem protagonismos, mas com uma pluralidade harmoniosa que mantém a banda bem direcionada em suas inúmeras ideias. Para os interessados, as letras das músicas estão disponíveis em inglês no site oficial da banda, viima.org, oferecendo uma experiência ainda mais completa para os fãs de rock progressivo.

NOTA: 9,4/10

Gênero: Rock Progressivo, Folk Rock

Faixas:

1. Tyttö Trapetsilla (4:42)
2. Äiti Maan Lapset (18:50)
3. Pitkät Jäähyväiset (6:38)
4. Perhonen (6:45)
5. Vuoren Rauha (7:37)

Onde Ouvir: Plataformas de Streaming, Bandcamp e Youtube

quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

Pearl Jam - Dark Matter (2024)

                        

Ao mencionar o Pearl Jame estou evocando o ponto de partida da minha relação profunda com o mundo do rock. Remonto a um momento marcante de 1992 quando me deparei com o videoclipe de Jeremy. Aquela narrativa visual culminando em um desfecho poderoso foi como uma revelação para mim, despertando um interesse imediato e visceral pelo grupo. Foi um momento crucial onde minha conexão com a música e a expressão artística atingiu um novo patamar.

Nos meses seguintes, fui cativado ainda mais pela presença do Pearl Jam quando a MTV exibiu a icônica performance de Porch no Pinkpop. A energia, paixão e a autenticidade da banda eram palpáveis e eu me vi totalmente absorvido pela experiência musical. Logo depois, o Unplugged MTV me ofereceu uma perspectiva mais íntima e crua da musicalidade do grupo, consolidando ainda mais minha admiração.

Dark Matter chega como o 12º disco de estúdio da banda – o que considero pouco para uma carreira discográfica de 33 anos. Mas de qualquer forma – e o mais importante de tudo -, eles parecem querer continuar soando relevantes ao entregar um disco cheio de dinamismo, frescor e de uma sonoridade que mantém sua música envolvente durante todos os seus cerca de 48 minutos divididos em 11 canções. Apenas um adento, se você é daquelas pessoas que até hoje evocam discos como Ten ou VS para comparar com álbuns mais recentes da banda, não sei o que o que você faz ouvindo-os ainda, agora se você compreende o que é o Pearl Jam hoje em dia, certamente Dark Matter vai atingi-lo da melhor forma possível.

"Scared Of Fear" abre o disco entregando uma vibração clássica da banda, vocais enérgicos, guitarras cativantes e uma seção rítmica sólida, precisa e sincronizada que sustenta o ritmo da faixa muito bem. "React, Respond" mantém o disco dentro de uma sonoridade de alta voltagem, com refrão chiclete e uma linha instrumental maciça. A faixa captura a energia crua da banda, combinando riffs intensos e ritmos pulsantes. "Wreckage" é uma balada que se destaca no álbum por seu estilo emocional e envolvente. Por meio de sua estrutura estilística a música parece prestar homenagem a Tom Petty ao incorporar elementos de sua abordagem distinta à composição e à performance.

"Dark Matter" é uma das peças mais pesadas do álbum. Seção rítmica penetrante, riffs encorpados de guitarra e um solo ao melhor estilo Mick McCready, um cara que nunca foi um “guitar hero”, porém, sempre entendeu bem o que é necessário pra soar marcante dentro da banda. "Won't Tell" é outra balada do álbum que embora não seja tão impactante quanto "Wreckage", ainda oferece uma experiência de qualidade. A faixa se destaca por sua batida constante e envolvente, proporcionando uma base sólida. É enriquecida com o acréscimo de alguns leves toques de sintetizadores.

"Upper Hand" possui uma introdução bastante atmosférica de mais de um minuto e meio feita por sintetizadores e guitarra até entregar mais uma peça em ritmo lento. Os floreios de guitarra solo são belíssimos e exemplificam exatamente o que eu disse na faixa anterior. "Waiting For Stevie" me fez sentir uma grande “vibração grunge” encontrada em discos – da banda ou não – da primeira metade dos aos 90. Talvez a produção mais polida possa atrapalhar um pouco essa percepção, mas basta se concentrar e perceber que o grunge clássico, digamos assim, está ali.

"Running" é outro dos momentos mais pesados do disco. Assim que começou foi impossível não lembrar de Rearviewmirror, clássica faixa do disco VS. Possui a melhor seção rítmica do álbum e alguns dos vocais mais raivosos. As guitarras como sempre soam perfeitas, tanto nos riffs quanto nos solos. "Something Special", após a “violência” da faixa anterior, tudo suaviza de novo por meio de uma peça em que Vedder faz um aceno para as suas filhas. Nota-se uma boa influência na música country moderna.

"Got To Give" é um daqueles velhos exemplos em que o básico pode funcionar muito bem, um rock and roll direto e objetivo que apresenta uma abordagem clássica que é ao mesmo tempo empolgante e envolvente. O acréscimo de algumas linhas de piano encaixou muito bem. "Setting Sun" é a faixa de encerramento. Novamente há uma boa vibração country e entrega um fechar de cortinas extremamente aconchegante para o disco.

Dark Matter apresenta um Pearl Jam confiante e com uma sonoridade totalmente própria e característica. A banda demonstra que embora valorize suas raízes e tenha respeito por sua história, não deixa de buscar novas perspectivas em sua arte. No mais novo capítulo de sua história, a banda entrega uma celebração da sua identidade e que tem a capacidade ressoar positivamente tanto nos fãs de longa data, quanto com novas gerações de ouvintes.

NOTA: 7,2/10

Gênero: Rock Alternativo, Hard Rock

Faixas:

1. Scared of Fear – 4:24
2. React, Respond – 3:30
3. Wreckage – 5:00
4. Dark Matter – 3:31
5. Won't Tell – 3:28
6. Upper Hand – 5:57
7. Waiting for Stevie – 5:41
8. Running – 2:19
9. Something Special – 4:06
10. Got to Give – 4:37
11. Setting Sun – 5:43

Onde Ouvir: Plataformas de Streaming e Youtube

The Weather Station - Humanhood (2025)

                                       

The Weather Station é um projeto liderado pela canadense Tamara Lindeman. Suas composições se destacam pela profundidade com que são explorados temas diversos muitas vezes dentro da complexidade envolta das nossas emoções. Combinando letras introspectivas e poéticas com melodias atmosféricas e bem construídas, o projeto apresenta arranjos muito bem elaborados que transitam entre o folk tradicional, indie rock e até mesmo algumas nuances jazzísticas que juntos criam dessa forma uma sonoridade envolvente.

O projeto ao longo dos anos passou por uma clara evolução. Enquanto os primeiros álbuns apresentavam um estilo mais acústico e enraizado no folk tradicional, os trabalhos mais recentes entregam uma abordagem mais expansiva. Com o álbum "Ignorance" (2021), Tamara trouxe uma transformação sônica ao incorporar elementos de art pop e jazz que ampliaram a sonoridade do projeto. Instrumentos como cordas, teclados e saxofones são utilizados na construção de paisagens sonoras sofisticadas que enriquecem as narrativas de suas letras. 

Coproduzido por Lindeman e o seu experiente parceiro musical Marcus Paquin, Humanhood álbum foi gravado ainda em 2023 trazendo consigo uma sonoridade cheia de sofisticação dentro de uma fusão rica de pop, folk, indie rock, jazz e música ambiente, criando dessa forma uma experiência sonora que é ao mesmo tempo expansiva e intimista. A atmosfera do álbum é amplificada pelo uso de arranjos texturizados e bastante detalhados que possuem a capacidade de evocar tanto vulnerabilidade quanto força.

“Descent" abre o álbum com uma introdução instrumental breve e atmosférica. Apresenta um arranjo minimalista de flauta e uma melodia etérea que sugere introspecção e mistério. "Neon Signs" surge de forma orgânica mantendo a batida deixada por "Descent", como se ambas as faixas estivessem conectadas em um fluxo contínuo. A música entrega uma mescla de indie rock e pop atmosférico com uma batida de ritmo ininterrupto, enquanto isso, os sintetizadores criam uma paisagem sonora envolvente e as guitarras apesar de discretas adicionam belas camadas. 

“Mirror” é uma das faixas mais sofisticadas do disco, oferecendo uma instrumentação muito bem cuidada e excelente atmosfera. Traz alguns elementos de jazz contemporâneo que adicionam tanto profundidade quanto complexidade à música. A bateria é fluida e discreta e os “ataques” de saxofone feitos de maneira orgânica em momentos pontuais adicionam um charme especial. "Window" se constrói sobre uma batida sólida e cadenciada com uma percussão bem pronunciada que confere à música um impulso contínuo, como se estivesse empurrando o ouvinte para frente. A batida não apenas dá movimento à música, mas também a coloca em um território mais rítmico, enquanto sua letra parece capturar o momento exato em que alguém toma coragem para abandonar uma situação sufocante.

“Passage” é um pequeno interlúdio instrumental de menos de um minuto baseado em texturas eletrônicas ambientais. "Body Moves" é uma faixa que se sustenta em um groove ritmado e dançante. Possui algumas linhas profundas e marcantes de baixo que dão à música uma base sólida e cheia de ritmo. Possui uma influência de funk que adiciona um dinamismo contagiante que faz a música remeter imediatamente ao desejo de movimento e dança. Inclusive, o vídeo oficial é apenas uma câmera focada em Tamara realizando alguns leves movimentos. 

"Ribbon" é uma composição acústica que se destaca pela sua simplicidade e delicadeza. A faixa possui um arranjo sutil de piano que cria uma atmosfera íntima e introspectiva. À medida que avança, sua sonoridade vai se expandindo e conferindo à faixa uma qualidade onde cada acorde soa como se estivesse sendo cuidadosamente projetado para evocar uma emoção profunda. “Fleuve”, com pouco mais de um minuto, é mais um interlúdio que nasce e termina por meio das mesmas notas de piano deixado pela faixa anterior.

"Humanhood", a faixa-título é uma fusão que combina muito bem elementos de folk e jazz, criando desta forma uma sonoridade quase sedutora. A base da música é construída por arranjos de sopro que adicionam uma textura rica e fluida, enquanto a bateria mantém uma sensação de introspecção, mais ou menos como uma espécie de compasso reflexivo e que convida o ouvinte a mergulhar na música.

"Irreversible Damage" é uma faixa mais sombria e melancólica que possui uma enorme profundidade emocional que transborda de cada acorde. O contrabaixo acústico entrega algumas linhas expressivas que parecem refletir a densidade do sentimento da música, enquanto a bateria cria uma textura sonora que permite que cada elemento respire e se desenvolva perfeitamente. A forma que os instrumentos interagem entrega uma forte influência no jazz contemporâneo. 

"Lonely" é uma balada de arranjo minimalista e que permite que a sua emotividade se manifeste de forma pura e direta. Uma seção rítmica de notas delicadas e espaçadas cria uma sensação de solidão e cura emocional – que são os seus temas líricos. Leves sintetizadores atmosféricos preenchem o espaço com sutileza e mostram um exemplo claro de uma música que se constrói dentro de um equilíbrio perfeito entre o silêncio e a expressão. 

"Aurora" é o terceiro interlúdio do álbum, uma peça etérea de pouco mais de um minuto e meio que funciona como uma pausa meditativa.  É uma interação delicada entre o piano e a flauta que trocam melodias suaves em um diálogo introspectivo. A sonoridade atmosférica do sintetizador preenche o fundo suavemente. 

"Sewing" é a música de encerramento. Começa com uma bateria solitária, mas logo em seguida o piano entra suavemente acompanhando a voz delicada de Tamara que flui com leveza e serenidade, dando à música uma sensação de intimidade e fragilidade. Uma flauta surge de forma suave, como um abraço musical que envolve o ouvinte, então que um som ao fundo vai crescendo gradualmente e cria uma tensão que permeia o ambiente até silenciar repentinamente, deixando a música segue por meio de piano e voz até terminar. 

Apesar de suas abordagens cruas, introspectivas e profundas, Humanhood oferece uma visão sensível e verdadeira sobre temas universais como solidão, identidade, desilusão, amor e desejo, tudo isso dentro de uma musicalidade que se destaca pela sofisticação dos arranjos que combinam elementos de folk, jazz, pop e música ambiente de forma fluida e envolvente, enquanto que as interpretações emocionais de Tamara Lindeman transmitem uma vulnerabilidade que dá vida a cada palavra e nota. 

Por fim, Humanhood não é apenas uma coleção de músicas, ele também é uma jornada dramática e comovente que vai além da superfície ao convidar o ouvinte a refletir sobre sua própria humanidade, suas contradições e as complexidades do que significa ser verdadeiramente humano. 

NOTA: 9/10

Gênero: Art Pop, Art Rock

Faixas:

1. Descent - 1:00
2. Neon Signs - 5:07
3. Mirror - 4:56
4. Window - 2:41
5. Passage 0:48
6. Body Moves - 3:27
7. Ribbon - 3:18
8. Fleuve - 1:10
9.Humanhood - 4:11
10. Irreversible Damage - 5:36
11. Lonely - 4:36
12. Aurora - 1:37
13. Sewing - 5:58

Onde Ouvir: Plataformas de Streaming e Youtube

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